quinta-feira, 13 de março de 2008


QUEM É MAIS SABIDO, O RÁDIO OU A TELEVISÃO ?
Segunda Parte > a televisão.

No final da década de 1960, o movimento do empório diminuiu acentuadamente e Zé Capenga ficou preocupado com o fato, motivo pelo qual conversou com João Miadé:

- Ô cumpade João ! o que é que tá se assucedendo que os prosador nunca mais apareceram aqui no empório ?

- Ô cumpade Zé Capenga ! vosmicê tá pur fora das novidade ? Não tá sabendo que Edson Pires comprou uma tal de televisão e a casa dele só anda lotada.

Zé Capenga tomou um susto, mas pouco entendeu do que acabara de ouvir. Na verdade, Zé Capenga ficava praticamente só com seu rádio, noites e mais noites. Até que certo dia, chegou uma comitiva para levá-lo até a casa de Edson Pires, na Praça do Mercado, onde todos assistiriam ao jogo do Flamengo. Zé Capenga relutou, pois não se sentia atraído pela novidade e desculpou-se:

- Não meus amigos, eu não sei que geringonça é essa tal de televisão.

- Mas cumpade Zé Capenga, lá os jogador fica tudo dentro do treco, da tal televisão; a gente vê – falou João Miadé.

Elofram Marques, que era dono de um time, aqui em Ipirá, chamado Flamengo, aproveitou a deixa e completou:

- Mas Zé Capenga ! toda a torcida do Flamengo vai tá lá, só vai faltar você que é o nosso chefe maior. Não !. Você é o único que não pode faltar, nem por motivo de doença. Nós que somos Flamengo até morrer, em qualquer lugar, aqui no seu empório ou na casa de Edson.

Zé Capenga estava resistente e buscou mais uma explicação:
- Eu num tô acostumado com esse troço de televisão, é um jogo de decisão do campeonato, o Flamengo tem que vencer e eu não quero perder um lance.

Elofram Marques tentava convencer Zé Capenga a qualquer custo:
- Lá é que você não perde lance nenhum. Lá você vê, e tem mais Zé Capenga, se você não for eu deixo de ser flamenguista.

Zé Capenga parou com aquelas palavras e ficou imaginando a falta que faria Elofram Marques nas discursões contra os vascainos, principalmente, Antônio de Púbio e Braga da Loja. Ele era o mais forte coligado, e se "ele debandasse para o outro lado", ficou pensando Zé Capenga, ao mesmo tempo que sentia um calafrio na espinha. Foi quando Zelito de Maroto, um molecote que era mascote do Flamengo de Elofram, falou com a cara marruda e de choro:

- Seu Zé ! se seu Zé não for com a gente eu vou dá um creu naquela camisa do Flamengo que seu Zé me deu e nunca mais eu venho aqui vê seu Zé.

- Não rasgue o manto sagrado do Flamengo. Tá certo, eu vou, mas levo meu rádio – falou Zé Capenga, o maior apaixonado pelo Flamengo nesta terra, que estava emocionado.

O Flamengo jogava pela vitória e o jogo estava 0x0. Aos 44 minutos do 2º tempo, aconteceu uma falta no meio do campo para o Flamengo. Dida pegou a bola e preparou-se para bater. Zé Baau, treinador e dono do Grêmio, outro time daqui de Ipirá, deu a orientação necessária e precisa para a vitória do Flamengo, pois era o maior técnico e conhecedor de futebol da cidade: -

Não chuta não ! cruza prá Babá cabecear.

Babá tinha um metro e meio de altura; Beline, que era seu marcador, tinha dois metros de altura. Dida olhou em direção aos telespectadores, parece que ouviu o conselho de Zé Baau. Todos olhavam para a televisão. Não tiravam, nem batiam os olhos; a respiração estava presa em cada torcedor. Dida continuava com as mãos na cintura, quando deu o primeiro passo e nem tinha tocado, ainda, na bola, ouviu-se um grito na sala:

- Gool de Dida; gool do Flamengo – era o grito de Zé Capenga, que tinha o rádio junto ao ouvido.

Na televisão, Dida ainda corria para a bola e a torcida amontoada pelo chão da casa de Edson Pires, queria silêncio e Delsuc Dutra reclamou:

- Cala a boca Zé Capenga ! tu qué qui a corrente quebre, parece até qui tu é Vasco.

- Acabou ! Flamengo é campeão ! acabou ! é campeão ! – gritava Zé Capenga.

Na televisão, Dida chutou a bola, que viajou percorrendo milimetricamente todo aquele espaço sob a volúpia de olhares angustiados e morreu nas redes vascaínas. A galera, amontoada na sala, levantou-se para gritar. Zé Capenga levantou-se e saindo, disse:

- Logo não tá vendo que esse geringonça não vai ser mais sabida do que meu rádio.

Conclusão > A passeata rubro-negra passou pela Praça do Mercado, rua de Cima e Praça da Bandeira. Um grupo gritava: "Quem é mais sabido ?" o outro respondia: "O rádio de Zé Capenga". Na Segunda-feira, o movimento do empório voltou a ser o que era antes; a luz continuou mais rápida do que o som e o som continuou mais rápido do que a imagem. Assim é a vida.

quinta-feira, 6 de março de 2008


QUEM É MAIS SABIDO, O RÁDIO OU A TELEVISÃO ?
Primeira Parte è o Rádio.
Agora, eu vou contar um causo, e este causo tem duas partes, esta é a primeira.

Ipirá é uma terra muito acalorada, também pudera, fica no semi-árido, mas a quentura que faço questão de referir-me é a dos apimentados debates de sua gente e isso não é coisa de hoje, nem de ontem.

Há muito tempo, havia na saída da rua das Flores e início da rua Pedro Alves, um sujeito chamado Zé de Melo, mais conhecido por Zé Capenga, magro, meio calvo, que puxava de uma perna, como o próprio nome já diz. Era uma pessoa cordial e do bem. Zé Capenga era dono de um empório muito concorrido, que andava cheio de clientes e de prosador, por dois motivos muito simples: vendia fiado e era dono de um aparelho de rádio.

Ouvinte assíduo e viciado em rádio, Zé Capenga só desligava o rádio da marca Zenith para esfriar as válvulas, afora isso, acompanhava tudo, desde as novelas radiofônicas como, "Jerônimo, o herói do sertão", até as bravatas de Carlos Lacerda e sempre comentava: "que cabra safado é esse Lacerda; isso é o maior lambe-botas de tio Sam".

E todo dia tinha assunto e todas as noites as pessoas ouviam a rádio Mayrink Veiga e os comentários acalorados iam noite-a-dentro, até que o horário de descansar os corpos chegava, não permitindo que fossem mais adiante, mesmo que a conversa não tenha sido finalizada, assim sendo, continuava brasa viva para a noite seguinte. Era sempre assim.

Certo dia, a clientela encontrou Zé Capenga chorando descabelado e todos ficaram desesperados. João Miadé tomou a iniciativa e perguntou:
- O que foi que aconteceu, cumpade Zé Capenga ?

- Nosso pai morreu – disse Zé Capenga balbuciando e caindo em choro transbordante.

Todos ficaram aflitos, mas procuravam um meio de consolar Zé Capenga. Silvestre Carneiro buscava confortá-lo, dizendo:
- Meu amigo Zé; todos nós estamos nesse caminho; uns vão mais cedo, outros mais tarde, mas nenhum de nós vai escapar desse dia. Ele vai ter um bom lugar lá no céu, disso eu tenho certeza.

Zé Capenga não parava de chorar. A notícia da morte do pai de Zé Capenga correu pelos quatro cantos da cidade e a aglomeração aumentava. Ninguém conseguia confortar Zé Capenga, que dizia:
- Nosso pai morreu. Perdemos nosso pai. O que vamos fazer sem ele?. Eu ouvi no rádio.

Zé Papagaio, o melhor memorialista de data nesta terra, que não perdia um só detalhe de tudo que estava acontecendo, acrescentou em cima da bucha:
- Se deu na rádio é verdade; rádio não mente.

Zé Capenga chorava copiosamente, não parou um só instante. Lá pelas tantas, chegou um cavaleiro com um chapéu de couro quebrado por cima do rosto e entrou no empório pela porta do fundo, observou a multidão, tirou o chapéu e colocou-o no cabide, para o espanto de todos. Ouviu-se um grito de Zé Papagaio:
- Oxente ! esse é Mané de Juventino, o pai de Zé Capenga.

João Miadé deu um salto e caiu na frente de Zé Capenga, e foi indagando-o imediatamente:
- Ô cumpade Zé Capenga, olha Mané de Juventino aí na frente, home. Ele tá vivinho da silva e cuma é que o cumpade quer fazer o home de difunto?.

- Num é isso não cumpade; foi nosso pai dos pobre, Getúlio Vargas, que morreu com um tiro no peito. Eu ouvi no rádio.

João Miadé tomou um susto e o impacto da notícia tomou conta de todos, dos soluços ao choro prolongado foi uma questão de segundos. Todos se abraçavam e choravam. Todos sentiam aquela falta. O chororô foi geral e igual ao do Botafogo, chorou o presidente, o jogador e o torcedor, afinal era 24 de agosto de 1954.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


É DE ROSCA.
Estilo: ficção.
Natureza: novelinha.
Capítulo: 06. (mês de março 2008)
Observação: leia os capítulos 1-2-3-4-5- nas postagens anteriores.

Ainda, estavam diante do matadouro o prefeito Dió, a empregada e o motorista, isso já fazia uma quinzena, com a ambulância sem freio e a obra do matadouro naquela morosidade. A aparência do prefeito Dió tinha melhorado, mas deixava sinais bastante evidentes de que não ia tão bem assim, até mesmo pelo fato dele pedir opinião, coisa que não cabe bem ao seu estilo, mas naquele estado em que se encontrava sua melhora era bastante acentuada diante do quadro em que se encontrava dentro da ambulância e ele queria conversar:
- Tudo que você fala tem que meter carneiro pelo meio, fale em matar onça, tatu, jibóia, bengo, mas você só tem essa conversa de matar carneiro aqui nesse matadouro e eu vou lhe dizer pela última vez: AQUI NESTE MATADOURO NÃO VAI SER ABATIDO UM SÓ CARNEIRO – falou alto e exaltado o prefeito Dió.

A empregada Natalina arregalou os olhos na direção do prefeito Dió e ficou meio perplexa, mas conseguiu soltar umas duas palavras:
- Vosmicê aguente aí, deixe eu trocar umas explicações aqui, com o motorista.

A empregada Natalina chamou o motorista da ambulância para o fundo do matadouro e foi dizendo:
- O prefeito Dió gritou comigo desse jeito, bem nas minha venta, agora eu vou dizê prá vosmicê seu motorista, qui ele escapou de assuntá nas mesma artura qui ele falou, prumode dele tá adoecido, se não fosse isso ele ia vê o bafafá qui eu ia fazê nesse matadouro.

- Não se azangue empregada Natalina, no meu haver a saúde dele melhorou bem – disse o motorista.

- Eu vou dá assunto ao qui vosmicê tá a me dizê, também o prefeito Dio deve tá queimando de febre – disse a empregada.

- Como é que a empregada Natalina sabe que o prefeito Dió tá queimando de febre ? – perguntou o motorista.

- É porque o home de Deus tá perguntadô de mais, só pode ser febre. Esse home nunca perguntou aos macacos porque eles tem o rabo grande, a língua solta e miolo mole. Ele nunca pergunta nada a macacada. Ele mete as cara e vai tocando o barco prá frente. Veja o cagadô da Praça da Bandeira, não perguntou a nenhum obrador se queria daquele jeito e no canto da praça; moradô da praça ? Nem tum.

- Não é bem assim não, a macacada tá esperneando e vai aprontá uma prá cima dele, que vai dá até pena; já lançou uma letra só para azucrinar a vida do prefeito Dió – disse o motorista.

- Lançou quem ? – indagou a empregada Natalina.

- Vosmicê não tá sabedora ? Lançou o J.

- Mas menino ! onde foi qui tu já viu um letra só ganhar prá três, D – I – Ó. Essa macaca tá querendo é tomar lapiada de cansanção no lombo; eles que não matutem como deve ser, que eles vão ficar sem a cuia e o caldo. Vamos voltar para junto do prefeito Dió.

Ao se aproximarem, a empregada Natalina foi dizendo:
- Antes que vá embora da minha memória, deixe eu dá prosa de umas coisa qui ta aqui no meu peito; olha bem, que na obra da Praça da Bandeira tem muito túmulo e pouco monumento. Aquele cagador é um túmulo perdido no meio do jardim; infelizmente, aquele cagadô não vai dá certo, tá embarrerando a visualização e vai sê uma fedentina disgramada.

O prefeito Dió nem deu atenção ao que ouviu, não é homem de voltar atrás, o que tá feito tá feito, goste quem gostar.
- Ora dona Natalina ! quem não gostar que fique fazendo blog, o povo precisa cagar. Eu estou aqui é observando, com todo entusiasmo que cabe em minha alma, este matadouro, esta é minha grande obra – respirou fundo e completou – vou levantar minha reputação administrativa com essa magnífica e portentosa edificação.

- Com essa coisa xixilenta ? – indagou a empregada.

- O que dona Natalina ? como a senhora ousa denegrir esta grandiosa obra. Isso aqui é o marco principal da minha administração e é bom frisar, que nenhum prefeito desta terra conseguiu terminá-la.

- Mas prefeito Dió, num sou eu não, homem de Deus, qui tá a dizer as coisa, é os urubu. Será que vosmicê ainda não botou os zoim nesse rebanho de urubu que tá rondando esse matadouro. Esses bicho é agourento. Eu entendo do canto desse bicho e eles tão atravessado na sua administração, meu amo. Vosmicê tem que se livrar deles.

O prefeito Dió sofreu o impacto daquele presságio e ficou paralisado, olhando um urubu que desceu em vôo rasante na direção de uma caminhonete, que vinha do Rio do Peixe, carregada de ovelha, ia bater bem na frente do motorista. O prefeito Dió colocou a mão nos olhos e disse:
- Oh, meu Deus ! agora vai morrer um bocado de carneiro na porta do matadouro.

SUSPENSE: o que será que vai acontecer ? será que esse matadouro de rosca vai matar tanto carneiro ?
Leia o sétimo capítulo no mês de abril 2008.
OBSERVAÇÃO: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008


A FILA DO BANCO DO BRASIL, AGÊNCIA IPIRÁ, É BOCA DE ... (parte 2)

Tempo é o que não falta para contarmos os acontecimentos da fila. Caiu na fila ? O tempo vira um tempão. Então, lá vai burburinho. A algazarra no rabo da fila do Banco do Brasil de Ipirá foi aumentando e uma voz rouca foi dizendo com o tom alterado:
- Ô moleque ! tu tá me melando com esse bagunço de jaca, passa na minha frente, que não me importo não.

E a fila foi unânime neste "passar à frente" e o molecote com três bagunços de jaca foi passando e chegou na cabeça da fila e daí para o caixa foi um pinote, esperou somente um sinal do funcionário e ele já chegou dizendo:
- Ô seu home ! bota esse dinheiro aí na conta de Merquide.

- Como é o nome dele e cadê o cartão ? – perguntou o caixa, pegando no dinheiro.

- É Merquide da Jaca – disse o molecote do bagunço de jaca.

- Eu quero saber é o nome todo e o número da conta – disse o caixa.

- É Merquide da Jaca – disse o molecote do bagunço de jaca.

- Sim, cadê o cartão dele ? – perguntou o caixa.

- É Merquide da Jaca, seu home, ele é lá da Caboronga e todo mundo conhece ele. Seu home nunca comeu jaca de Merquide, não ? – indaga o molecote.

O caixa sentiu o sabor da jaca, mas tinha pavor do visgo e não gostava de ficar com as pontas dos dedos tirando o bago da jaca com todo cuidado, sempre melava as unhas bem cuidadas pela perícia da manicure, o caixa não pensou duas vezes e disse:
- Nunca comi jaca; não gosto de jaca e tenho raiva de quem gosta.

O molecote tinha colocado os três bagunços de jaca no balcão; e com a cara de quem não entendia nada foi dizendo:
- Ô seu home ! decá o dinheiro da jaca de Merquide, qui num sei de cartão ninhum e seu home fique sabeno, é qui num sabe trabaiá cumo se a deve trabaiá.

O caixa foi entregar o dinheiro e a mão ficou grudada no dinheiro ou o dinheiro grudou na mão. Agora é que a fila não anda; um caixa só funcionando, numa hora de pique e além do mais, o caixa com a mão pesada e peguenta de visgo, agora é que a fila vai engarrafar.

É nessa hora que o nível de estresse cresce e a fila fica impaciente e começa a dizer o que não deve:
- Agora, isso aqui vai ficar pior do que o engarrafamento da rua de Cima.

- Mas menino ! qual é o engarrafamento que tem na rua de Cima ? Engarrafamento de lascar com um, tem é em São Paulo – contraditou uma senhora.

- Olha dona ! lá é de carro e aqui nesse banco é de gente – contra-atacou a fila.

Eu sabia que aquela discussão ia longe e para colocar mais lenha na fogueira e vê a coisa feder, indaguei para todos ouvirem:
- No entender de vocês, quem sacaneia mais com a gente: é o engarrafamento de São Paulo ou o dessa fila aqui do Banco do Brasil de Ipirá ?

Infelizmente, não tive a alegria de ver o circo pegar fogo, porque uma outra voz, saída não sei de onde, detonou uma falação muito mais inteligente e objetiva do que a minha, ao dizer:
- O vagabundo vem ali.

Logo, três vigilantes correram em direção à porta, com as mãos nos revólveres, para recepcionar o vagabundo, e eu comecei a pensar: "para receber vagabundo tem três homens, mas para atender a gente aqui na fila só tem um caixa, estourando dois e para organizar essa fila, ninguém ?". Como eu estou apenas a uma hora na fila e ainda tenho muito que esperar, essa parte três eu conto depois.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008


É DE ROSCA.
Estilo: ficção.
Natureza: novelinha.
Capítulo: 05. (mês de fevereiro 2008)
Leia os capítulos anteriores (1-2-3-4-)nas postagens abaixo.

Com dois minutos, a ambulância parou em frente à residência do prefeito Dió e o socorro foi prestado. Quando o motorista arrancou o carro, a empregada foi comentando:
- Bastou eu falar em carneiro prá o prefeito Dió ficá todo trampizinado, nem tocou nas delícia.

- É assim mesmo. Essas pessoas que não é da caatinga tem uma quebrança com os carneiros que até hoje eu não sei dos motivo. Tem uma bacana, aqui em Ipirá, que não sabe a diferença de um carneiro e uma ovelha, mas bota uma banca disgramada contra os carneiro – disse o motorista.

- Prá ser verdadeira, eu também num assuntei porque isso acontece. Seu motorista pisa fundo prá gente salvar o prefeito Dió – falou de forma agitada a empregada.

O motorista colocou 300 Km p/hora, para levar o prefeito Dió para o Hospital de Ipirá, quando chegou no quebra-molas que fica em frente ao Hospital de Ipirá, pisou no freio para entrar à direita e nada, a ambulância não obedeceu, faltou freio, passando por cima do quebra-molas, levantando fumaça e logo, deixava para trás a fábrica de calçados Paquetá. Do posto de gasolina Augustos só viram o vulto e dois segundos foram suficientes para cruzar o Parque de Exposições, mas quando chegou ao Matadouro de Ipirá, a ambulância estancou de vez, parecia jegue pirracento quando planta as quatro patas. Com a parada brusca, o prefeito Dió voltou a si e viu pela janela o prédio do Matadouro de Ipirá. Saltou imediatamente, olhou para a empregada e perguntou meio sonolento:
- Onde é que eu estou ?

- Vosmicê tá sendo levado para o Hospital de Ipirá , mas neste devido momento, vosmicê tá de frente com o matadouro – disse a empregada.

- Foi bom a gente parar aqui. Deixe eu fazer uma vistoria na minha obra preferida.

Depois de examinar a obra, o prefeito Dió verificou que a mesma não avançava como ele queria e, pensando rápido, concluiu que novos procedimentos deveriam ser tomados, mas não deixou de comentar em voz alta:
- Um mês de trabalho e só levantaram duas linhas de tijolos ! vou tomar as medidas cabíveis.

- E essa é sua obra preferida, imagine se não fosse ! a outra lá, já tá nas artura – comentou a empregada Natalina.

- Qual outra ?

- O mijador da Praça da Bandeira, já dá pra gente vê pur
riba das madeirite.

- Ipirá não tem praça com esse nome – disse o prefeito Dió.

- Até qui vosmicê podia botá o mijador em outro nome, mas vosmicê vai vê a cagada qui vosmicê deu botano esse mijador nos canto da Praça da Bandeira, e adispois num fique aí dizeno qui não tem mijador nenhum prumode qui não tem praça com esse nome.

- Ora minha cara funcionária do lar Natalina ! já entendi a preocupação que você quer pronunciar na sua singela ingenuidade e rudes palavras; você está referindo-se aos dois monumentais, cheirosos e profiláticos sanitários públicos que ficarão nas esquinas do jardim, fazendo um belo conjunto arquitetônico, com a igreja no meio.

-E vosmicê acha qui isso tá de acordo e qui o povo tá bateno parma, isso vai fedê qui nem peido de bode capado – disse Natalina.

- Ora minha precavida funcionária Natalina ! eu vi isso foi em Paris, um sanitário público bem no centro de uma praça. A utilidade é quem dá a dimensão da obra. Inclusive, adiantando só para você, observe a consideração que lhe dedico, eu pretendo dá um carro novo a quem inaugurar essa obra, e de antemão já estou vendo a fila quilométrica que se formará.

- Todo mundo sabe qui vosmicê é conhecedor daz Oropa, agora o povo daqui é conhecedor da Fróes da Mota, da Piedade e do Campo Grande e no meu haver quem devia ter sanitário público era o Banco do Brasil, Bradesco, CEF, SICOOB e os bares da praça. Só em Ipirá é que o sujeito bota um bar e o mijador dos bêbados é na rua !.

- Tenha calma Natalina ! não precisa também ficar alertando o povo. Eu quero é sua opinião sobre esse assunto.

- Bom ! já qui vosmicê tá fazeno questão do meu dizê, eu digo prá vosmicê, qui vosmicê tem que arrumá esse matadouro de carneiro aí; como o povo tá com fome de carneiro, vosmicê faz uma grande matança de carneiro e adispois, eu faço umas mandinga prá dá uns tremileco na barriga do povo no dia da inauguração dos mijador, ai a caganeira desse dia, vai ser do povo e não de vosmicê.

SUSPENSE: o que será que vai acontecer ? será que esse matadouro de rosca vai matar tanto carneiro ? ou será que o prefeito Dió vai derrubar os sanitários públicos como foi feito com os caixões da rua de Cima ? ou o prefeito Dió já esqueceu ? ajudem o prefeito Dió dando a sua opinião.
Leia o sexto capítulo no mês de março 2008.
OBSERVAÇÃO: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008


A FILA DO BANCO DO BRASIL, AGÊNCIA IPIRÁ, É BOCA DE ... (parte 1)

O Banco do Brasil em Ipirá fica na Praça da Bandeira, embora conste um outro domicílio na folha de cheque, mas como eu dizia, é nesta praça que fica o Banco do Brasil. Em frente ao Banco do Brasil encontrei Ló, que estava entrando num ligeirinho. Gritei para ele:
- Ô Ló ! ô Ló ! quero falar com você.
- Agora eu não posso, são 12 h e estou com pressa. Vou à Feira de Santana buscar uma encomenda e ainda quero encontrar esse Banco do Brasil, agência Ipirá, aberto, para resolver um empréstimo urgente – disse Ló e o ligeirinho seguiu viagem.

Entrei no prédio do Banco do Brasil, agência Ipirá, e logo de cara defrontei-me com a fila, que estava na terceira volta; deste ponto até o caixa leva-se uma hora de cansaço, em pé, que significa um verdadeiro teste de paciência. Nada mais resta do que ficar saboreando os saracoteios que vão acontecendo na fila para ir esquecendo que esta fia do Banco do Brasil é uma das piores coisas que existe em Ipirá. É um verdadeiro desperdício de tempo e uma prova da sagrada incompetência de muita gente.

Em minha frente estava um cidadão baixo e gordo, que demonstrava sinais de impaciência e arriscou um palpite: "a fila do inferno anda mais ligeiro do que a fila deste Banco do Brasil; lá pelo menos o diabo tem pressa em atender os clientes e vai mandando entrar". Parado eu já estava há 15 minutos e não saía do lugar; a fila não andava e naquele instante, aquela observação pareceu-me a mais pura verdade, mesmo sem saber prá que banda fica esse tal de inferno, mas concordei com aquele dizer "essa fila do Banco do Brasil é pior do que a fila do inferno", pelo menos pareceu-me adequada àquela situação, que considero uma viagem de cágado; onde o espaço engole o tempo, cada passo leva 10 minutos e o tempo ganha a sua suprema lentidão: lentidão do lado de cá da fila e do lado de lá do caixa. Ah ! sim, o caixa. Um só caixa no horário de pique é a prova da insensatez e do descaso.

A fila do Banco do Brasil não é uma fila peba não. Tem a cabeça lá perto do caixa e o rabo perto da porta giratória, parece uma cobra deslizando pelo chão; às vezes reta, outras desengonçada e bagunçada, a depender do seu estado de espírito e da sua impaciência, que reluta em não ficar parada, mesmo sem sair do lugar.

O apito da porta giratória disparou. Os olhares da fila foram naquela direção. Uma senhora, toda nos trinques, carregando o mais puro ouro nos braços e no pescoço, traspassou aquele obstáculo e aproximava-se da fila, que ficou embasbacada diante de tanta altivez. Um sujeito sarará e bastante sagaz deu a dica:
- Aquela é dona Letícia, a mulher do homem de Brasília.

A fila na dúvida, concordou prontamente, afinal, devia tratar-se de uma altíssima autoridade, quem sabe até do Fórum e ninguém queria passar por vexame, porque autoridade é autoridade. A madame granfina nem olhou para o rabo da fila; foi em direção à cabeça e com aquela empáfia que Deus lhe deu, dirigiu-se ao caixa e com a suavidade da finíssima educação britânica, falou-lhe:
- Boa tarde ! por obséquio diletante jovem, eu gostaria de sacar este cheque de Brasília, ele está assinado por Lulinha.

O funcionário do caixa sentiu um tremor no corpo; seu coração acelerou; faltou-lhe respiração; era emoção demais; afinal, não é todo dia que se tem a sorte de atender uma madame tão vistosa, educada, cidadã, e foi logo dizendo:
- Prontamente V. Exa., seu pedido é uma ordem – e foi colocando aquela bolada nas mãos da elegantíssima mulher, que não poupou elogios.

- Muito agradecida pela gentileza. Estou deslumbrada com a rapidez e a eficiência com que vocês atendem os clientes aqui. Eu confesso que tenho andado por este mundo afora e nunca vi atendimento igual, nem no primeiro mundo, e você deve saber que eu sou viajada. Olhe ! meu querido, vou recomendar esta agência do Banco do Brasil de Ipirá ao Lulinha e ao Guidon de Manteiga lá de Brasília. Com certeza vocês ganharão o prêmio Fórmula 1 de velocidade no atendimento bancário. Vocês terão o meu depoimento, simplesmente, levei apenas um segundo para ser atendida. Muito agradecida, meu jovem – e foi saindo com toda elegância, que não cabe neste mundo.

Lá se foi a fragrância do perfume francês acompanhando a virtuosa mulher, que passou pela porta giratória e foi embora. Fazia meia hora que eu não saía do lugar e no rabo da fila começou uma algazarra, mas esse relato, você vai ter que esperar, porque eu ainda tenho muito tempo pela frente, nesta fila, e enquanto isso eu vou escrevendo o que acontece, então aguarde a parte 2, é só mais duas semanas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


QUEM GOSTA DE TERRA É MINHOCA.

Esta semana, precisamente, quarta-feira 09.01.08, eu assistia um noticiário na Record News, que apresentava uma reportagem feita diretamente do Paraná, com agricultores e agrônomos falando da importância e do valor extraordinário do adubo natural em suas plantações com resultados excelentes, com um custo bastante inferior ao adubo químico e com uma produtividade bem superior e mais limpa por ser orgânica. PASMEM ! estavam falando de um produto que chegou ao Paraná e é conhecido por "Terra de Ipirá", ou seja, trocando em miúdos, falavam das excelentes qualidade do farelo de rocha retirado da região do Bomfim, em Ipirá.

Também, não custa nada lembrar, que Ipirá localiza-se no sertão da Bahia e sua vegetação típica é a caatinga, que se encontra hoje bastante reduzida daquela formação original, fruto do desmatamento para a constituição de pastos para a sua principal atividade econômica, a pecuária. Sofre com as secas cíclicas e prolongadas (estamos na boca de uma seca que pode ter consequências terríveis, metade de janeiro 08 e nada de chuva); tem um clima semi-árido; seu solo é raso e de
cascalho, não é terra de centro.

É bom que se diga que, gradativamente, as pastagens estão perdendo a qualidade nutritiva e a terra está ficando degradada por conta do uso inadequado, ou seja, com a derrubada da caatinga; com o pisoteio excessivo; com a falta de chuva; por não haver cobertura e acontecer a exposição excessiva da terra nua ao sol; com o uso da aração; com as primitivas queimadas; com a poluição desgraçada provocada pelo plástico que toma conta dos pastos. Com o mau uso do solo aumenta a erosão natural na superfície terrestre e devasta a capacidade produtiva do solo e ainda provoca a voçoroca, basta ver a quantidade de novos riachos que vão aparecendo nas propriedades.

O município de Ipirá é implementado por uma pecuária, que podemos muito bem caracterizá-la de predatória, pois não há uma prática de rotação correta das pastagens; até mesmo, porque a formação das pastagens levam à redução da cobertura vegetal, provocando a extinção de espécies vegetais nativas, até o umbuzeiro corre perigo de extinção, pois morre mais do que nasce. O empobrecimento do solo é um resultado saliente, basta observar o surgimento de terreno arenoso, resultado de práticas extremamente nocivas que consomem nutrientes do solo, matéria orgânica e sementes. A lição é simples: a utilização de recursos naturais sem garantir sua reposição resulta na desertificação.

O problema fica ainda mais grave porque o clima do planeta está ficando louco, com o aquecimento global. Essa elevação da temperatura média global está ligada a fenômenos como o agravamento da desertificação, ou seja, a ampliação do aquecimento global gera desertificação. Esse aquecimento é suficiente para alterar o clima, com terríveis secas em áreas semi-áridas, sendo assim, o Nordeste brasileiro pode ser o mais afetado e Ipirá está encravado aí, atingindo profundamente a biodiversidade, com a redução da vegetação e da capacidade produtiva do solo.
Não sei se as coisas acontecem por burrice, ignorância ou pobreza; penso até, que é por uma arrogante individualidade do homem, principalmente do ipiraense, mas depois, não fiquem por aí, com a boca escancarada, esperando a morte chegar, querendo ir buscar terra no Paraná, depois de ter esbravejado em alto e bom som que, quem gosta de terra é minhoca.