quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

É DE ROSCA

Estilo: ficção
Natureza: novelinha
Capítulo: 31 (mês de abril 2010) – incrível, apresentação do novo capítulo da novelinha esculhambada com, simplesmente, 10 meses de atraso e observe que ela tem 2 anos e 7 meses e não acaba. Nem satanás acaba essa novelinha.

- UAI, UAI, UAI, UAI, UAI, UAI, UAI, UAI!
Essa gritaria conseguiu espantar toda a vizinhança, principalmente, isso acontecendo em pleno silêncio da madrugada. Muitos levantaram para saber o que era que estava acontecendo e todos aguardando a iniciativa de alguém, pois, poderia ser uma coisa grave.

- Vem de onde esses gritos? – indagou alguém.

- Parece briga de marido e mulher – acrescentou uma vizinha mexeriqueira.

- Vem da casa do prefeito Dió; só pode ser coisa grave – disse alguém que deixou as indagações de lado e tomou a iniciativa de bater na porta e ser atendido.

Foi o próprio prefeito Dió quem abriu a porta: “Uai, uai, uai!”

- Mas, prefeito Dió o que foi que aconteceu? – perguntou o vizinho querendo ser solidário.

- Uai, uai, uai!

- Já sei! O senhor estava sonhando com o Matadouro de Ipirá?

- Uai, uai, uai! Antes fosse. Eu quero discutir o Matadouro de Ipirá, no
rádio, no blog, em qualquer lugar.

- Mas, prefeito Dió! Quem mais sabe que esse Matadouro de Ipirá não vai sair é o senhor mesmo. O senhor já enrolou o povo de Ipirá até hoje, com esse assunto e ainda quer enrolar mais? O que foi que aconteceu mesmo? Foi um pesadelo ou é mais enrolação prá cima do povo? – questionou o vizinho.

- Uai, uai, uai! Quem ta enrolado sou eu. Uai, uai, uai!

- Para de chorar, homem de Deus! E diga logo o que está acontecendo. O senhor nunca quis saber do Matadouro de Ipirá e agora, acorda uma hora dessa da noite querendo falar de Matadouro de Ipirá! – falou o vizinho.

- Uai, uai, uai! Me mataram! Acabaram comigo! Botaram no meu! Me lascaram! E sem cuspe. Uai, uai, uai!

- Quis cunversa atravessada é essa prefeito Dió? O prefeito Dió andou fazendo istripolia pelo avesso? – perguntou o vizinho esbaforido.

- Uai, uai, uai! Não, vizinho! Não é isso que o vizinho ta pensando não. É na política. Uai, uai, uai!

- Mas, prefeito Dió! O senhor acorda uma cidade, uma hora dessa, por causa da política! Logo o senhor, o Mestre dos Mestres, o Águia do Agreste da politicagem interiorana, o senhor, o Grande Maestro que dá nó em pingo d’água, o Carcará que pega com destreza os adversários e coloca-os no bolso, e agora está, em plena madrugada, a choramingar por causa da política! Me faça uma garapa, porque essa eu não engulo, eu vou é dormir – disse o vizinho.

- Uai, uai, uai! Não vá não, vizinho. Não me deixe só nesse tormento. Luiz do Demo, que só quer ser PMDB, quer acabar comigo. Não é que ele botou meu irmão Luciano como pretendente ao cargo de prefeito. Uai, uai, uai! O que é que eu faço? Eu quero morrer. Eu vou morrer. Uai, uai, uai!

- Não faça isso não prefeito Dió. Tenha calma, homem de Deus. Isso é lá hora de pensar numa desgraça dessa? – argumentava o vizinho tentando contornar aquela situação.

- O vizinho tem toda razão. Uai, uai, uai! Mas Luiz do Demo que só quer ser PMDB, quer acabar comigo. Eu tinha acabado com a jacuzada. A jacuzada estava no buraco, fritada em banho-maria, sem beira nem eira e, agora, esse Luiz do Demo que só quer ser PMDB, na hora de sucumbir afogado, botou meu irmão contra mim e agora eu não tenho saída, ou dou uma facada na macacada ou dou uma facada em meu irmão. Uai, uai, uai!

- Isso é fácil de resolver, prefeito Dió! O senhor coloca o candidato do PT de Ipirá que é o candidato do governador Wagner, todo mundo aceita e ponto final – sugestionou o vizinho para acabar com aquele chororô.

- Uai, uai, uai! Isso é o que o PT de Ipirá pensa que vai acontecer! Mas de tanto pensar morreu o burro e o dono do burro. O PT de Ipirá não é problema, esse ta grudado nas tetas da macacada, o problema é justamente o governador que virou macaco e agora vai virar jacu. Meu irmão tem o apoio do homem. Uai, uai, uai. Eu quero morrer. Uai, uai, uai.

- Eu vou dá um conselho ao prefeito Dió, não morra não prefeito Dió, tire umas férias, o senhor trabalha só dia de quarta-feira e deve estar muito cansado, tire umas féria, ande por esse mundo de meu Deus, respire outros ares e depois, ao invés de morrer, o senhor dá uma espetada em alguém e vamos que vamos – aconselhou o vizinho.

- Uai, uai, uai! Meu vizinho tem razão e é isso o que eu vou fazer, vou largar tudo aí, não quero nem saber. Amanhã mesmo, vou embarcar num transatlântico e vou pelo mundo gozando as delícias de um cruzeiro. Uai, uai, uai, ô vida boa!

- Que mal lhe pergunte: o senhor vai levar o PT de Ipirá? – perguntou o vizinho.

- Uai, uai, uai! Não estrague meu passeio, vizinho. Isso é uma reunião de cúpula, é coisa de família. Nós vamos para Cintra, em Portugal. Uai, uai, uai! Ô vida boa!

Suspense: e agora ? o que será que vai acontecer ? Em quem o prefeito Dió vai dar a facada? Na macacada ou no irmão? Com crime toda novela aumenta a audiência. Agora é que essa novelinha não acaba nunca. Êta coisa de rosca, essa novelinha e o Matadouro de Ipirá.

Leia o capitulo 30 (março 2010) bem abaixo.

Observação: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária, que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

SUCESSÃO MUNICIPAL.

A GRANDE PREOCUPAÇÃO!

“VOU LARGAR ESSE BALAIO DE GATO AÍ E CAIR NO MUNDO”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM (parte 7)

Parte 7.
O menino Dodó da Zabumba ficou sem condições de continuar em Ipirá devido ao acontecimento com seu Roque, embora isso já passasse um bom pedaço de tempo, o perdão ainda não estava maduro. Foi para a cidade maravilhosa Rio de Janeiro.

Seus familiares moravam em Madureira e o menino Dodó deparava-se pela primeira vez com uma cidade grande. Tudo era impactante e desnorteador. A primeira aparição foi o mar, coisa nunca vista, muito menos imaginada. A maior aguada que o menino Dodó tinha visto até então era o tanque Velho e desde garotinho, quando tomava banho no tanque, ficava absorvido com aquele gigantismo. Agora diante do mar, encontrava-se arrebatado pela imensidão e sem explicação, exclamava para quem quisesse ouvir:
- Oxente! Essa lagoa engole uns dez tanque Véi.

O menino Dodó estava deslumbrado com o mulherio do Rio de Janeiro. Nunca tinha sonhado que houvesse algo parecido. A cada saída apaixonava-se trezentas mil vezes, virou um libertino. Nunca pensou que seu coração fosse tão fugaz e volúvel. Não foi correspondido uma vezinha sequer. Quando chegou a Copacabana pela primeira vez, sentiu um arrepio e um calafrio ao ver tanta mulher de maiô, não deixou por menos:
- Vixe, minino! Qui as mulé daqui anda tudo pelada. É tanta senvergonhice qui eu não sei porque não vim prá cá a mais tempo.

A televisão ainda não tinha expandido para fazer a unidade nacional. O menino Dodó vestia uma calça batendo no meio da canela e andava serelepe com aquele jeito interiorano e catingueiro. Adorava Copacabana e comparava-a ao paraíso, pelo menos naquilo que achava que não podia faltar em um paraíso de verdade e ali tinha em demasia. Quando via uma carioca começava a babar e um certo dia botou olho gordo em um grupo de patricinha, encheu-se de compenetração e azuretado da vida partiu para cima. Era uma seleção nacional da anatomia humana na sua forma mais esplendorosa e de uma beleza esculpida por mão divina. O menino Dodó nunca tinha visto algo tão glamoroso e apetitoso e pensou: “parece até as codornas que Sabiá mata em Ipirá”. Partiu com sua firmeza inabalável e foi dizendo à primeira que encontrou em sua frente:
- Eu tenho assuntado coisa bonita aqui no Rio, mas nem esse Pão de Açúcar tem a metade da tua beleza e eu quero saber a tua graça.

- Sai de mim baiano, nem de mocorongo eu gosto – disse a garota, que foi saindo acompanhada pelas outras aos risos.

O menino Dodó sofreu aquele impacto, mas foi tomado pelo questionamento: “Cuma é que ela sabe que eu sou baiano? Parece que minha fama já chegou aqui também!”

Passeando por Madureira, o menino Dodó bateu de frente com Zé do Norte, sanfoneiro da região do Pau Ferro, que tocava na Feira de São Cristovão para fazer uns trocados e o sanfoneiro foi dizendo:
- Mas esse mundo é pequeno mesmo, veja só quem eu encontro aqui no Rio, Dodó da Zabumba! Mas meu fio o que é que tu ta a fazer aqui no Rio justamente na hora que eu to na maior precisão de um zabumbeiro arretado. Ta pareceno até que foi o dedo daquele lá di cima qui atravessou vosmicê na minha frente.

Lá estava o menino Dodô na feira de São Cristovão do jeito que mais gostava, tocando zabumba e acompanhando o sanfoneiro Zé do Norte. Atraído pelo som do forró o povo ia chegando e aumentando a concentração. O zabumbeiro Dodó passou um olhar pela redondeza e viu uma lapa de mulher que não tinha comparação. Aí o zabumbeiro ficou saliente, aumentou o repique e as evoluções. Disparou um torpedo pelo olhar e foi correspondido. Aí o zabumbeiro endoidou de vez. Piscava o olho e aquele doce olhar derretia-se em sua direção. O zabumbeiro tentava puxar a musicalidade e cantava: “É hoje que eu só chego amanhã”. O sanfoneiro retrucava: “fica na tua zabumbeiro, é ipsilone,” e fazia “é ipsilone, hum, hum, hum, ipsilone”. O zabumbeiro ficou atrevido, não tirava o olhar, parecia enfeitiçado. O sanfoneiro, sem parar o som, ia acotovelando o menino da zabumba e falando: “sai debaixo zabumbeiro, tu ta escorregando na banana, depois tu não diz que a sanfona não te avisou”. O zabumbeiro estava rezado, parecia que tinha o coração cravejado por um milhão de flechas, pulava, rebolava, esperneava, era uma presa enlouquecida de um amor arrebatador. O sanfoneiro cantava, falava, chegou até a improvisar uma música para tirar o zabumbeiro da paixão desvairada: “a periguete ta atravessada, ela não é aranha, ela é espada”. O zabumbeiro estava hipnotizado e contrapôs com sua cantoria: “ Deu mole, eu vou atrás, um rebolado desse eu não perco mais”. Assim que a lapa de mulher saiu, sorrateira, piscando o olho e sorridente, o zabumbeiro foi atrás.

O zabumbeiro foi logo puxando conversa: - Você é a coisa mais linda desse mundo.

- Rum, rum – murmurava a lapa de mulher.

- Com você eu quero ser o homem mais feliz do mundo, quero atingir as mais alta altitudes do prazer.

- Hum, hum – continuava murmurando a lapa de mulher.

- Oxente, coisa linda! você não fala não? Só fica aí, rum, rum, rum! – perguntou o zabumbeiro, que partiu para o ataque mostrando atitude.

- Vem meu zabumbeiro serelepe que a tua flor desabrochada ta te querendo todinho – disse a lapa de mulher.

O zabumbeiro Dodó sentiu aquele calafrio e indagou:
- Oxente! Que voz grossa é essa no meu cangote ?

Mas estava esfogueado e correu a mão, ai deu um pinote, parecendo mula que costuma empacar, perdeu a voz, a vontade e tudo mais. Sacudiu a porrada na zabumba e foi andando de costa, ao encontro da sanfona, aí o forró foi sacudido, no capricho e na autoridade. O zabumbeiro foi dizendo: “ mas sanfoneiro, as mulé daqui gosta tanto de xeeém qui anda cum uns móio de cobra dentro das pernas”, o sanfoneiro não perdia tempo e mandava vê: “xeeém, hum, hum, xeeém, hum, hum, xeeém! é traveco meu zabumba”. O zabumbeiro arregalava o olho, nunca tinha visto isso, e dizia: “só vendo prá crê, meu sanfoneiro. O cão é quem fica aqui, eu vou cair fora, vou para o Paraguai”.
O sanfoneiro completava: “Não é que nós vai! sanfona, zabumba e triângulo é bicho de dá em doido, em quarquer lugá, na Bahia, no Rio e no Paraguai, e lá vamos nós, agora é no Paraguai meu povo, pode aguardá que a gente manda notícia de lá. Xeeém, hum, hum, xeeém!”.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

RADIOGRAFIA 11



Banco de La Plaza de la Bandera

As administrações macacos e jacus impressionam pelo descaso, ineficiência e desprezo com a coisa pública.

Na praça de quase um milhão de reais, eles trocaram os bons meios-fios de pedra pelos precários meios-fios de cimento; o passeio de lajotas de alto impacto por cimento escovado e pintado a La Copacabana, é o famoso passeio pirata, imita, mas não é; os fortes bancos de cimento por frágeis e fajutos bancos de madeira. Um primor de mediocridade.

Resultado: com as chuvas ou com o sol, as madeiras apodrecem ou empenam; sem manutenção os parafusos soltam; sem conserto, as madeiras soltam e os bancos ficam deteriorados. Um verdadeiro descalabro.

Tem assento de banco que só ficou uma ripa de madeira, não tem como uma pessoa sentar. Tem banco sem o encosto, pasmem. Uma verdadeira sucata.

Nem com a reforma de quase um milhão de reais não tiveram a sensatez de aumentar a quantidade de bancos, que continuou os mesmos da década de 50 do século passado e para complementar a inoperância, eles não fazem a manutenção, reparo e a substituição dos bancos quebrados. Assim sendo, vão sumindo os bancos da praça. Um após outro.

As administrações dos jacus e macacos são temerárias, Ipirá não suporta mais isso.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

RENOVA IPIRÁ (01)


No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer

No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver

Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos.
(estrofe da letra NOVO TEMPO – Ivan Lins / Vitor Martins)

domingo, 9 de janeiro de 2011

RADIOGRAFIA 10





Você se lembra quando foi a última chuva forte em Ipirá ? Já faz um certo tempo. Não sei se o prefeito ainda se lembra quando foi que aconteceu, mas o certo é que o calçamento da rua Emídio Aquino lembra-se muito bem. Foi no ano passado.

Foi uma chuva forte, mas não tão forte assim, embora o calçamento, por ser calçamento e não entender bem as coisas, tenha pensado e até hoje pensa, que foi um terremoto acompanhado de um furacão porque o desmantelo foi grande.

Cavou um buraco um pouco acentuado, que engole um menino, e levantou uma porrada de paralelepípedo colocando uns sobre os outros e, além do mais, entortou um bom pedaço do calçamento.

Eu comparo calçamento torto à administração municipal torta. É um balaio só. Administração jacu & macaco é uma coisa de fazer lástima. É de uma imprestabilidade sem tamanho. Eles gostam tanto de buraco que para consertá-lo leva um tempão. Só uma grande Ipirá para agüentar tanto descaso.

Da década de 80 para cá, calçamento em Ipirá é um verdadeiro caso de polícia. Observando esses calçamentos de Ipirá podemos notar uma verdadeira esculhambação, são aclives, declives, buracos, lombadas, bacias, costela de vaca, camaleão e outras coisas mais. No lugar do cimento colocam areia lavada, pelo menos é o que parece, a água vem leva a areia só fica a pedra solta. Uma verdadeira vergonha.

Os calçamentos de antigamente, feitos com a orientação do mestre-de-obra Domingão, eram bem feitos e resistentes. Os de hoje, é feito na manteiga, qualquer coisa derrete. Essas obras de calçamento, sob a administração de jacu & macaco, pegando firmas de fundo-de-quintal, com material de quinta categoria para proporcionar superfaturamento é uma verdadeira falcatrua. São obras mal construídas, precárias, com péssimo acabamento, sem massa que grude, sem fiscalização. O resultado é esse que vocês estão vendo nas fotos. E a demora para solucionar o problema é a demonstração de que são irresponsáveis e desrespeitam o povo de Ipirá.

domingo, 2 de janeiro de 2011

QUANDO ... A LÍNGUA VAI NUMA CARRETA.



Dizem que a curiosidade mata. Tenho certeza que não, mas que entorta a língua isso eu não tenho dúvidas. Eu digo isso, porque observei que as pessoas estão ligadas ao que lhes interessa e também ao que não lhe diz nenhum respeito, não lhes cabe e não é da sua devida conta.

Uma senhora passava em frente ao Góes Calmon, na Avenida, quando tirou, da sacola, o celular e começou a dizer:
- Escuta, Joana! Tem um prédio aqui na avenida que pintaro a frente de preto. Quem já se viu uma disgraceira dessa! Num sei cuma é qui o prefeito deixa uma coisa absurda dessa! Deve ter uma lei que proíba uma sujeira dessa!

Eu, que estava bem próximo, já estava impaciente com aquela observação, dirigi-me àquela senhora e disse-lhe:
- Oh, dona! A senhora não acha que está falando demais e de uma coisa que pouco lhe interessa?
- O que? Eu estou fazendo um 21 e o senhor tome parte de sua vida, pois o 21 é quase nada que se paga e vá tomá parte de sua vida.

A dona seguiu viagem. Que Deus a leve. Não demorou quase nada e vem outra mulher, que fala em voz alta:
- Te disconjuro! Como é que bota preto na frente da casa? Ta pareceno o coito de Zumbi.

Eu pensei: “essa vai ter a resposta que merece” e disse-lhe:
- Sabe por que ta assim dona? Isso aí é uma homenagem! É uma homenagem ao Vitória, que saiu da A para a B e ali no meio vai pintar de vermelho.

- Oxente, seu moço! E esse tal de Vitória morreu pra precisar de luto?

- Não, dona! Quando o Vitória voltar para a A muda-se a cor. É só por isso.

- Eu sei lá se vou ta viva pra vê isso! Eu só sei que nem Zumbi ta no agrado disso aí.

Depois dessa conversa extraviada saiu rapidamente, que nem deu ouvidos para o que eu disse. Dois homens vinham subindo a avenida e um deles falou:
- Oxe! Pela primeira vez eu vejo preto na parte de fora.

- É qui preto é a tinta que menos se vende, aí fica vencida e a casa vende mais barato, é um jeito de economizar – explica o outro.

Foi a vez de dois jovens tecerem comentários. Um deles foi dizendo:
- Olha aquilo ali! Que coisa mais exótica. É um barato.
- Oxente! Isso aí ta na moda. É muito zen. Isso é um tratamento delicado, suave na textura primária, que dá uma grande demonstração de morbidez, ta ligado.

Conversaram sem parar e seguiram mudando a conversa. Deixei para lá. Apareceu até um doutor entendido para dar palpite.
- Essa pintura preta não é a mais apropriada para o nosso clima, porque absorve mais os raios solares e provoca o aumento do calor no interior do prédio, por isso não é correto utilizar esse tipo de cor em fachadas, seria melhor uma cor mais clara.

- O prezado é pintor? – perguntei.

- Não, sou doutor.

- Então, o doutor tem que compreender que aqui na avenida ocorre muito engarrafamento e os veículos desprendem muito dióxido de carbono que vai poluindo a atmosfera e essa fuligem fica impregnada nas fachadas das casas, sendo assim, a pintura com a cor preta absorve e esconde essa sujeira, daí o preto ser uma pintura apropriada e adequada para as localidades que são vertentes de um trânsito intenso e confuso.

- Muito grato pela explicação, que me deixa mais tranqüilo, pois justifica plenamente e sacia a minha busca de conhecimento.

Apareceram três molecotes fazendo algazarra e o magricela falou:
- Olha, doido! Qui cor mais horrorosa!
- Aquilo não é cor não, seu burro! É só pra queimá, maluco.

Eu fiquei pensando: “queimar o que?”. Antes que eu esqueça: vá todo mundo tomar naquele lugar.