quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

HOMENAGEM (parte 13).




A maconha chegou à Ipirá e alastrou-se como umbu no tempo da safra. Dodó da Zabumba estava animado, pois era o dia da festa da padroeira e ele era devoto de Senhora Santana, coisa que ele primava em sua vida. A animação era maior ainda porque ele iria tocar com o sanfoneiro Zé Bezerra, consagrado e afamado em todo Nordeste e para aumentar ainda mais a animação, o zabumbeiro pensou e resolveu: “vou tomar uma cerveja no bar de Tonho Gordo”. Foi para a rua de Cima, com a zabumba pendurada nas costas, e entrou no bar Cafuçú, logo sendo chamado pela turma que estava sentada em uma mesa no fundo do salão.



- Menino Dodó! Chegue mais meu irmão, venha ficar numa boa, cara – disse um coligado.



- Vou tomar um copo de cerveja, porque daqui a pouco eu vou tocar no show de Zé Bezerra – comentou o zabumbeiro.



- Qolé, minino Dodó, você é um cara cabeça, se quisé ficá legal você tem que tomá um chá, esse negoço de birita é coisa de careta – falou alguém no grupo.



O zabumbeiro não entendia nada daquelas insinuações. Tonho Gordo não deixou por menos e foi falando:


- Dodó é broder. Chegue mais broder, vai rolá um baseado e se você quisé pode dá uns tapa.



- Eu vou tomá um copo de cerveja pra dá animação no forró lá no coreto – disse o zabumbeiro.



- Dodó ta pareceno qui é bunda-mole, meu irmão! Esse zabumbeiro ta pricisano é ficá legal e de cabeça feita. Um broder como você não pode ficá de cara, você é um carinha legal. Acende logo esse morrão, qui Dodó vai dá uns tapa – falou com convicção alguém.



O cheiro tomou conta do ambiente, ao mesmo tempo que a fumaça impregnou-se em volta da mesa, Dodó esperniou.


- Qui fedô da disgraça é esse? Qui diabo é isso?



Em torno da mesa soaram as risadas, cada qual com sua galhofa, sendo que Tonho Gordo falou:


- Isso é a massa, zabumbeiro! Você tem é que curtir com a gente. Se você isperimentá essa massa, você vai ficá legal.



- O que é isso? - Indagou o zabumbeiro.



- É a marijuana, também conhecida por maconha, dê um tapa aqui e você fica logo batizado.



- Chega esse troço prá lá. Isso aí é a fumaça qui os ladrão bota pelo buraco da fechadura, os povo da casa dorme e o ladrão i entra e roba tudo. Eu quero é distança desse bagulho – disse Dodó que se afastou para o quintal, por causa do fedor e da fumaça, mas deixou o copo de cerveja sobre a mesa – quando vocês terminá com esse bagulho eu volto.



Tonho Gordo falou baixinho:


- Bota o produto na cerveja dele.



Botaram Artane e Rupinol no copo. A turma era só risada. Dodó voltou e tomou o copo de cerveja e disse:


- Essa cerveja parece que tá choca! Vou ali, que eu vou tocá no coreto e vocês que fique ai com seus bagulho.



Dodó aprumou as pernas e começou a andar, no batente da porta sentiu a diferença, havia dois metros de altura, fez que ia o passeio pulou para três metros de altura, Dodó parou e recuou, o passeio voltou para 20 cm; Dodó olhou, imaginou e pulou, o passeio não teve tempo de descer, Dodó falou:


- Tu viu passeio! Eu não disse que eu ti pegava, logo não ta veno que tu não vai dá im Dodô Zabumbeiro. Eu sou um cabra arretado – o zabumbeiro falava e dava risada.



As pessoas ficaram olhando com certo espanto para o menino Dodó, que seguia para a Praça da Bandeira, de forma que parecia que ia andando em câmara lenta, sempre sorrindo e vendo coisas e falando alto, para todo mundo e para ninguém:


- Oxente, quem foi que mandou botá ovo istalado no passeio do jardim? Agora, eu tenho qui andá por cima de tanto ovo.



Dodó andava de forma atabalhoada, mas era uma luta que ele travava consigo para pisar e não quebrar nenhuma gema de ovo, ao tempo que as pessoas olhavam e não entendiam porque o zabumbeiro andava com aquele jeito engraçado, como se estivesse pisando em ovos. Dodó começou a ver cobra e gritava:


- SAI DE BAIXO DONA! SE NÃO ESSA CASCAVEL PEGA A SENHORA.



A senhora pulava para depois olhar, como não via nada, não deixava por menos:


- Êta qui esse Dodó hoje, ta num lutrimento.



Quando Dodó chegou no coreto, tinha um palanque de madeira que seria o local do show, o zabumbeiro estranhou aquela altura e indagou:


- Cuma é qui eu vou subir nessas artura?



O sanfoneiro Zé Bezerra, sem perceber nada foi dizendo:


- Vamo lá zabumbeiro qui agorá é com a gente.



O sanfoneiro mandou um xote caprichado, o zabumbeiro cacetou uma valsa. O sanfoneiro não ficou por menos, puxou um xaxado, o zabumbeiro veio com um tango. O sanfoneiro tomou aquele susto e tocou um baião, o zabumbeiro sarrafiou um rock, ai o sanfoneiro olhou nos olhos do zabumbeiro e falou, contrariado e arretado da vida:


- Qui zabumbeiro é esse!



O zabumbeiro Dodó entendeu pelo avesso e aí se soltou de vez, jogava para a direita e rebatia com a esquerda, começou a tocar tamborim, bumbo e zabumba, tudo de uma só vez, era o famoso três em um, inventado e criado naquela hora, o sanfoneiro se atrapalhou; o zabumbeiro lascou a madeira, fez da zabumba, caixa de repique, surdo e berimbau; o sanfoneiro Zé Bezerra parou. Dodó não pestanejou e falou:


- Toca direito sanfoneiro, tu ta quereno mi tirá de tempo.



Terminado a apresentação, o trio desceu do palanque, o sanfoneiro com aquela cara de bolachão que seu Agnaldo vendia, não dava uma palavra. O zabumbeiro encontrou Tonho Gordo e a turma, foi logo dizendo:


- Vocês viu qui show da porra eu dei hoje aí?


A turma não dizia nada, só dava risada. Estavam todos sob o efeito da maconha

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

É DE ROSCA,




Estilo: ficção


Natureza: novelinha


Capítulo: 40 (mês de janeiro 2011) – incrível, apresentação do novo capítulo da novelinha esculhambada com, simplesmente, um ano de atraso e não acaba. Nem satanás acaba essa novelinha.



O prefeito Dió estava estendido em uma maca, já estava desenganado e pronto para bater as botas. Seu subconsciente começava a visualizar sua trajetória de retorno. Pensava o que tinha sido sua vida e observava o que vinha pela frente: o céu, com aquela paz, tranqüilidade e monotonia celestial, de um lado; do outro, o inferno, com aquele alvoroço, puxa-encolhe, arranca-rabo e sacode a peteca. “Agora não adiantava mais nada” pensava ele, estava nas mãos de Deus. Não tinha feito muita desgraça na vida, embora na questão política, sempre tinha enterrado uma peixeira no pescoço de alguém e, quase sempre, por trás. Mas, talvez, Deus nem levasse isso em consideração, porque política tem essa inclinação para o lado sombrio do espírito. “Seja lá o que Deus quiser, estava em suas mãos” confortou-se.



O médico encostou, abriu o olho esquerdo do prefeito Dio e balançou a cabeça negativamente e balbuciou: “ de esquerda esse nunca teve nada, infelizmente não tem mais jeito, vou fazer por fazer” e ordenou alto:


- Vá para a UTI-lidade rápido. Enfermeira entube o homem.



-Entubar é comigo mesmo – disse a enfermeira que foi pegar os tubos.



A enfermeira voltou com um tubo de esgoto de 4”, fedorento que nem buraco de esgoto e foi abrindo as pernas do prefeito Dió e quando ia entufando, ouviu aquela voz grossa:


- Espere um instante, a enfermeira é formada onde? – indagou o prefeito Dio.



- No CETEP.



O prefeito Dio deu um salto, caiu dois metros da maca e foi dizendo, ao tempo que saiu da UTI-lidade.


- La ele é quem fica aqui, não eu!



O comentário foi geral. Dispenso-me de escrevê-los na totalidade, não que não tivessem a mais profunda relevância, mas pelo fato de que seriam dez capítulos no mínimo só para postá-los, assim sendo, vão somente dois deles:


- Êta UTI-lidade boa essa do Hospital de Ipirá! O prefeito Dió chegou mais indo do que ficando e já está em pé – comentou o maqueiro.



- O prefeito Dió chegou nesse hospital pra lá de Bagdá, já tinha dobrado o quebra-mola de Paraíba e ia de ribanceira abaixo, não é que a UTI-lidade ressuscitou o defunto! – comentou o recepcionista.



Na portaria o prefeito Dió só fez sacudir a poeira, gesticulou e disse:


- Mas, menino! Só se eu fosse besta pra ficar num rabo de foguete desse, eu vou é mim distrair na minha Câmara de Vereadores.



Chegando à Câmara, o prefeito foi bem recebido. Sentou-se e ouviu o discurso do vereador Edu: “ É preciso que se faça uma CPI sobre o Matadouro de Ipirá, para se vê onde foi enterrado tanto dinheiro”.



O prefeito Dió fez que não ouviu. O vereador Edu repetiu, ai o prefeito Dió teve que interferir:


- Não vou nem pedir aparte a V. Exa, democraticamente o prefeito tem direito de falar na hora que bem quiser. Eu só quero salientar a V.Exa. que os nossos nobres vereadores não sabem o que é CPI, então não faz sentido V. Exa. ficar aí propondo uma coisa sem cabimento. Quer ver? Vereador no. 1, o que é CPI?



- Só pode ser cobra picando ipiraense.



- Essa foi boa! Mas é verdade! Não deixa de ser interessante soltar uma cobras no jardim para envenenar quem não enxerga as minhas obras. Vereador no. 2, o que é CPI?



- Só pode ser, cavalo pangaré inglês.



- Essa não foi boa, foi mais ou menos! Realmente, faz sentido, mas um cavalo inglês é muito caro e em Ipirá ninguém tem dinheiro para comprar um. Eu não gosto de cavalo, eu odeio cavalo. Vereador no.3, o que é CPI?



- Deve ser: coelho, paca e iguana.



- Como seria bom que Ipirá produzisse coelho e paca, iguana não, que eu não sei o que é isso. Vereador no. 4, o que é CPI?



- Com certeza, é cachorro pastando em Ipirá.



- Ô seu jegue! V. Exa. já viu cachorro comendo capim, se não tem, como é que ccc pode ser CPI? Vereador no. 5, O que é CPI?



- CPI, só pode ser caçando prefeito impostor.



- Essa foi péssima! Mas, pensando bem, V.Exa. não deve estar referindo-se ao grande prefeito Dió, que sou eu, mas ao próximo. Essa foi ótima. Vereador no. 6, o que é CPI?



- É Carneiro e a Pergunta do Ipiraense: onde é que vai matar esse bicho?



- Carneiro na balada, o que é que tem; ai, ai, assim você me mata; ai ai assim eu não agüento, se eu te pego, eu te mato, eu te acabo – cantava o prefeito Dió.



“carneiro, carneiro, na balada! Nossa, nossa! Assim você me mata, ai se eu te pego; delícia, delícia, assim você me mata, ai, ai se eu te pego” cantavam os vereadores.



Com a coreografia tornou-se o show do ano e nada da delícia do carneiro no Matadouro de Ipirá.



Suspense: e agora ? o que será que vai acontecer ? Em quem o prefeito Dió vai dar a próxima facada? Na macacada ou no irmão? Será que não vai ter sangue e morte nessa novelinha? Ou vai ser tudo de mentirinha para aumentar a audiência. Agora é que essa novelinha vai ter briga de irmãos e não acaba nunca. Duas coisas de rosca, essa novelinha e o Matadouro de Ipirá.



Leia o capitulo 39 (dezembro 2010) bem abaixo.



Observação: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária, que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

HOMENAGEM (parte12)




O zabumbeiro Dodó narrou este episódio, mesmo tendo sido atingido por um lapso do de memória, pois esqueceu o nome do deputado que lhe arranjou o emprego, pois, nesta época, Ipirá tinha dois deputados: A.M. e J.O. Como ele não se lembra qual foi, mesmo fazendo um longo exercício de memória, vamos à narrativa, que não perderá o brilho pela prevalência do lapso.



O deputado estava confabulando numa roda de correligionários, numa conversa amistosa e entusiasmada, quando aproximou-se o zabumbeiro Dodô e disse:


- Deputado! Eu sou Dodô Zabumbeiro, me arranje um emprego.



O deputado olhou o intruso de cima para baixo e virou o rosto, voltando-se para a roda de amigos na tentativa de retomar a conversa. O zabumbeiro Dodó não percebeu sua indiferença, muito menos o olhar de desprezo de que fora vítima e voltou a falar:


- Na minha família tem mais de duzentos votos e eu posso dizê um a um: tem Ramiro Taco-Roxo, Chiquinho, Joel...



- O que é isso meu amigo Dodô da Zabumba? Você acha que eu vou duvidar da sua hombridade? Um homem do seu quilate, que possue uma família como a sua, não pode ser preterido em um pedido como este seu. Tem mais, procure-me quarta-feira no meu gabinete, lá na Assembléia, que seu emprego é garantido – disse o deputado tentando remediar o descaso inicial.



Na quarta-feira, Dodó, de peito estufado, colocou a zabumba pendurada nas costas e partiu rumo à Salvador, mas, antes, teceu um comentário que repetiu inúmeras vezes: “o deputado vai mim dá um emprego de zabumbeiro.”



Na Assembléia Legislativa do Estado encontrou o primeiro e grande obstáculo, justamente, no saguão, os seguranças e o pessoal da portaria não queriam deixar Dodó subir com a zabumba, fato que gerou o primeiro entrevero entre o zabumbeiro e o pessoal do poder:


- E tem gente aí em cima melhor do que minha zabumba? Eu vou subir cum minha zabumba e não quero xiada.



- Eu tenho que dizer ao senhor, que o senhor tem que cumprir as normas regimentais e qualquer atitude que o senhor venha tomar de forma exacerbada, o senhor poderá estar infligindo a lei e estará sujeito à detenção.



- Vocês aqui, sabe quem sou eu? Eu sou é Dodó da Zabumba e vou dá mais de duzentos voto ao deputado e vocês ainda tão prezepano cum um cabra conhecido como eu!



Tudo indicava que o tempo iria fechar, mas o destino resolveu dar uma ajuda e esfriar aquela situação, que estava tornando-se tensa, pois justamente neste exato momento, apareceu o deputado no saguão e foi gritando:


- MEU ILUSTRE DODÔ DA ZABUMBA! O QUE É QUE TRAZ ESTE ILUSTRE IPIRAENSE À CASA DA CIDADANIA?



- O deputado não me mandou vim aqui hoje? Já esqueceu deputado? – indagou Dodó.



- Você acha que eu ia esquecer uma coisa grandiosa e significativa como esse assunto nosso? Vamos subir para o meu gabinete.



- Essas pessoa aí, num qué deixá eu subir com minha zabumba.



O pessoal da portaria comentou reservadamente ao deputado:


- V. Exa. sabe que estamos vivendo um momento de exceção, porque o terrorismo está agindo de forma instigante e essa pessoa que tem todas as características de um terrorista queria adentrar ao prédio com um bagulho desse tamanho, que podia ser uma bomba disfarçada, com poder para destruir Salvador.



- Não, Não! Você sabe que eu sou deputado do governo e esse amigo aí é uma boa pessoa, um trabalhador de boa índole, pode confiar em minha pessoa.



No elevador, o deputado confidenciou ao zabumbeiro:


- Se eu não chego agora, o amigo zabumbeiro ia ficar estrepado, porque os seguranças já estavam planejando jogá-lo num camburão e colocá-lo num pau-de-arara, mas amigo de verdade não deixa o leite derramar e eu cheguei no momento certo.



No gabinete, o zabumbeiro indagou:


- E meu emprego de zabumbeiro?



Está aqui, consegui com meu prestígio junto ao governador, um REDA para você, pode se considerar professor na escola Albina Cunha.


- Mas, deputado! Eu mal sei fazer um O com o copo, cuma é qui eu vou insiná prá mininada? O qui eu sei fazê e bem feito é tocá zabumba.



- Não se avexe não zabumbeiro! Os meninos de lá sabem menos do que você, tudo que você ensinar pra eles é lucro. Vá e faça o que você tem condições de fazer. Ensine prá ele aquela conta: nada vezes nada é nada e ta tudo arrumado.



Na escola G.C., o entusiasmo era generalizado, pois a diretora alardeou que chegaria um professor catedrático nos próximos dias, era um tal de professor Dorneles. O zabumbeiro Dodó apresentou-se na escola com uma zabumba nas costas e entregou o Termos de Assunção. A diretora atrapalhada, perplexa e acabrunhada, apresentou o professor à turma e desceu para a sala da diretoria, onde desmaiou.



O professor Dodó Zabumbeiro pegou um giz e escreveu no quadro “ vamo cumeçá azaula” e soltou o verbo. A meninada estava extasiada. As outras turmas largaram suas professoras e correram para a sala do professor Dodó, que lascava a porrada na zabumba e apresentava um variado repertório de dança.



A meninada comentava: “ô zaula boa é a do fessor Dodó”, “eu quero istudá cum o fessor Dodó”, “eu num vou querê a pró chata, eu vou querê istudá é cum o fessor Dodó”. A escola virou um pandemônio e o que se via era birra e pirraça da meninada. A diretora colocou as mão na cabeça e comentou:


- A perdição tomou conta do mundo, nem o Senhor dá mais jeito nisso!



Mas, alguém tinha que fazer algo e esse alguém era a diretora, que estava vivenciando aquela bagunça fazia uma semana. Mandou fazer uma farda verde-cana e entregou-a ao zabumbeiro dizendo:


- Professor Dodó! A Secretaria de Educação mandou esta farda para o senhor, agora tem o seguinte, quem veste essa farda tem que trabalhar na portaria da escola.



O zabumbeiro caiu na besteira e vestiu aquela bela e vistosa farda. Deixou de ser professor e virou porteiro. A meninada não gostou, queria por que queria, Dodó na sala de aula como instrutor. Fizeram birra e uma pirraça medonha, que virou greve .


Transferiram o porteiro Dodó para a portaria da escola A.B. Num trabalho sem emoção, sem calor humano e sem fuzarca, o que deixou o menino Dodó entristecido. Três meses depois entregou o emprego do deputado de volta. Era um zabumbeiro, um homem de vida livre.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UMA VERGONHA.




Quanto custa uma obra como o Matadouro de Ipirá? Três milhões de reais.


Quanto precisa gastar para terminar o Matadouro de Ipirá? Três milhões de reais.


Quanto já se gastou no Matadouro de Ipirá? Três milhões de reais.



Você entendeu alguma coisa? Evidentemente que não. Não coloquei esses valores aleatoriamente, mas também não contém uma precisão absoluta, até mesmo, porque a população ipiraense não tem conhecimento dos números na sua verdadeira concretude. Falta transparência e vergonha com a coisa pública.



Como pode uma obra como o Matadouro de Ipirá levar 20 anos( 4 de Antonio + 8 de Luis Carlos + 8 de Diomário, já estou dando como finalizado) para ser construído e nada? Podendo


Como pode uma obra como o Matadouro de Ipirá ficar pronta e não funcionar; depois sofrer uma reforma após ficar pronta e nunca terminar, para ficar pronta e funcionar? (é para não entender mesmo) Podendo.


Como pode tanto descaso com a coisa pública? Podendo


Transparência neste caso, só para a questionável e dubitável capacidade administrativa dos jacus e macacos na condução dos destinos de Ipirá.



A matéria oficial do prefeito: “Havia uma pendência relativa ao Certificado de Regularidade Previdenciário (CRP) que estava negativando o município e impedindo Ipirá de receber recursos do Governo Federal.”



Mais uma vez o velho e surrado choro do prefeito Diomário. Essa negativação foi causada pelo governo de Luis Carlos ou pelo seu? Porque seu governo recebeu verbas federais recentemente (reforma das praças).



A matéria oficial do prefeito: “o município tem pleitos importantes como a liberação de mais recursos para o Matadouro, proposta no MDA. Estando o município inadimplente, este convênio e contrato não poderiam ser liberados. O prefeito conseguiu a liberação e a expedição da Certidão de Regularidade Previdenciária.”



Mais uma vez a velha e surrada tática do prefeito super-herói, que conseguiu tirar o município do buraco, sendo que ninguém sabe, na verdade, se jogado por Luís ou por ele próprio.



A matéria oficial do prefeito: “O prefeito manteve contato com técnicos do MDA apresentando a proposta para a liberação de mais R$ 1.250.000,00 NECESSÁRIOS para concluir e dar funcionalidade ao Matadouro Municipal de Ipirá.”



O antigo problema. Merece ou não merece ser questionado?


Tinha que haver desde a vigência do primeiro contrato, técnicos para acompanharem a execução por meio de análise de documentos e inspeções presenciais para não acontecer o que ocorreu: veio o dinheiro público e a obra não foi concluída.



O prefeito Diomário tem que dá explicações à população ipiraense: O que aconteceu com as verbas que vieram para o Matadouro de Ipirá, nas outras e na sua gestão? Quem é esse construtor H.B? Quem indicou esse construtor? Ele tem ligação a quais personalidades políticas? A população tem o direito de saber o que aconteceu e está acontecendo.



É necessário que o Ministério Público no seu atributo de exercer atividade fiscalizadora dos atos administrativos do poder executivo acompanhe a aplicação dos recursos públicos advindos para o Matadouro de Ipirá e procure suspender esse tapete para que se possa dirimir as dúvidas existentes, desde quando o poder executivo em Ipirá mostra-se incompetente, ineficaz e perdulário com a aplicação do dinheiro público.



Consta ao Ministério do Desenvolvimento Agrário um maior rigor no acompanhamento da aplicação dos recursos, desde quando existem indícios de irregularidades e de malversação do dinheiro público numa obra que é um elefante-branco e está sendo mal gerida. O fato do prefeito Diomário ter sido cabo-eleitoral do deputado-ministro Afonso Florence exige um acompanhamento mais acentuado quanto a execução desses recursos.



Consta ao senador Walter Pinheiro, que exija com veemência que o prefeito Diomário, pessoa de sua confiança, faça a aplicação correta e adequada dos recursos oriundos da União para que essa obra tão necessária e prioritária para o município de Ipirá seja concluída, inaugurada e colocada em funcionamento. É só isso o que a população aguarda.



A população de Ipirá quer a verdade e a transparência em relação a esse Matadouro de Bovinos em Ipirá. Com tanta irresponsabilidade, imprecisão e descaso não vai demorar esse Matadouro de Ipirá virar caso de escândalo na imprensa nacional e respingar em muita gente graúda nas esferas governamentais. É necessário que os responsáveis expliquem: POR QUE ESSA OBRA ESTÁ EMPACADA?

domingo, 18 de dezembro de 2011

É DE ROSCA.




Estilo: ficção


Natureza: novelinha


Capítulo: 39 (mês de dezembro 2010) – incrível, apresentação do novo capítulo da novelinha esculhambada com, simplesmente, um ano de atraso e não acaba. Nem satanás acaba essa novelinha.



O prefeito Dió e o irmão Lu estavam saciados depois da saborosa comida do Rincão e reiniciaram a viagem em direção à Ipirá. Quando chegaram ao Marajó, o irmão Lu fez uma advertência ao prefeito Dió:


- Se você tocar na politicagem de Ipirá, eu boto você pra fora do meu carro e você vai ter que se virar para ir de ligeirinho.



- Deus me livre, irmão Lu! Já pensou, eu pegar um ligeirinho jacu e ele dá uma queda de asa, a porta abrir, eu cair e morrer! Lá ele, te desconjuro! Eu juro que não vou falar na política de Ipirá. Vamos que vamos.



Saíram do Marajó e o prefeito Dió calado, mas com o juízo pegando fogo e a língua coçando. Ia imaginando a situação em que tinha chegado a sua atuação na política de Ipirá: “botei todo mundo na mão, sou o líder e o chefe do processo sucessório e num piscar de olhos estou mais enrolado do que charuto de bêbado, por causa de uma candidatura que não solicitou a minha permissão e que vai sair pelo lado do jacu.” Estavam chegando à Anguera, o prefeito Dió não resistiu e indagou:


- Ô irmão Lu, por que você quer sair candidato a prefeito de Ipirá?



- Para fazer uma auditoria na sua prefeitura – respondeu friamente o irmão Lu.



O prefeito Dió tremeu, o carro saiu derrapando pela estrada, rrrrrrrrr, saltou uma cerca, tibummmmmm, e saiu por dentro do pasto fazendo o juntamento da boiada que estava naquele pasto na entrada de Anguera. Neste justo momento, passava um ligeirinho Ipirá-Feira e alguém comentou:


- Veja o progresso que nós chegamos, hoje o povo junta o gado com corolla zero.



Nem imaginava que era o prefeito Dió trazendo o progresso para a região. Depois de uma hora por dentro do pasto o carro retornou para a estrada e retomou viagem para Ipirá. No entroncamento do Bravo, o prefeito Dió resolveu, por displicência e sem querer, tocar num assunto que estava instigando o seu juízo:


- Por que o irmão Lu quer fazer uma auditoria na minha prefeitura que é a mais limpa do Brasil?



- Para ver o que você colocou embaixo do tapete – respondeu o irmão Lu friamente.



O carro saiu do asfalto, pra ca tum, pra ca tum, saltou a cerca, ti bum bum bum, daquele pasto que tem um morro de pedra perto da entrada do Bravo, saiu derrubando tudo quanto era pau que encontrava pela frente e começou a fazer um túnel no morro. Neste justo momento, retornava um ligeirinho Feira-Ipirá e alguém comentou:


- Veja o progresso que nós chegamos, hoje o povo faz os pastos é com corolla zero, nem precisa mais de trator.



Nem imaginava que era o prefeito Dió trazendo o progresso para a região. Depois de uma hora por dentro do pasto o carro retornou para a estrada e retomou viagem para Ipirá. O prefeito Dió estava taciturno, foi quando o irmão Lu quebrou o silêncio:


- Que lugar é esse, prefeito Dió?



- É o Pau-ferro, irmão Lu! Já esqueceu? Eu vou rememorar a sua cabeça com as obras que eu já fiz em Ipirá.



Quando lembrou de suas obras, o prefeito Dió acelerou o carro e botou 300 por hora, ao tempo que fechou os olhos, estava dormindo, era a hora de sonhar. O irmão Lu observou os olhos fechados do prefeito e gritou:


- QUE DEUS TOME CONTA DESSE PREFEITO.



Na entrada do Centro de Abastecimento, o prefeito Dió fez a sua primeira apresentação:


- Você está vendo essa entrada e essa drenagem, foi eu quem fiz, isso custou-me um dinheirão. Lá na frente tem umas casas populares espetaculares; são tão boas e bem feitas que já estou fazendo oito anos construindo-as para que saíam de primeira qualidade, se você quiser eu posso ceder uma para você morar, desde que você não mora aqui. Lá, ao lado está uma grande obra que eu inaugurei: o Centro de Abastecimento, que tem até sanitário público. Eu fui o único prefeito que construí sanitário público nesta cidade.



- É esse o Centro de Abastecimento que tem medo de água, quando chove é o maior lameiro, coisa que você não sabe, porque você não faz mais feira em Ipirá, é só em Salvador – disse o irmão Lu, meio aborrecido.



O prefeito Dió continuava com os olhos fechados. O carro continuava a 300 por hora. Na entrada da cidade, o prefeito Dió comentou:


- Olhe por cima das casas e veja o grande Centro Cultural de Primeiro Mundo, com um palco em cima, foi obra do meu governo.



- Ah! É o Centro Cultural que tem uma piscina no meio, basta chover que a água inunda toda a área, também com a cachoeira que você mandou construir, não tem chuvisco que não faça uma melança – criticou o irmão Lu.



Em frente ao Hospital de Ipirá, o prefeito Dió voltou a falar:


- Que UTI de última geração eu fiz nesse hospital, só falta inaugurar. Veja essa grandiosa e bela avenida que eu fiz do hospital à fabrica, se bem que não terminei ainda, mas, também, só tem três anos que venho fazendo e ainda falta um ano para terminar o meu mandato, tenho tempo de sobra para terminá-la.



O irmão Lu estava pasmo com o que ouvia, mas preferiu não questionar, ainda não era hora. Em frente à fábrica o prefeito Dió apontou com os lábios na direção ao Sudoeste e disse:


- Veja que belo Campus Universitário eu construir lá daquele lado, justamente para a juventude de Ipirá ter uma formação de Primeiro Mundo aqui na nossa terra.



O irmão Lu não agüentou e interpelou o prefeito Dió.


- Lá não! lá é a fazenda Cágados do meu irmão Kainho e o Campus que tem lá é para botar a boiada, não venha com essa enrolada não que não cola.



- Mas, irmão Lu, você sabe que minha prefeitura está sem recursos e eu tenho que fazer das tripas coração, sendo que neste caso, por uma boa e justa ação, eu achei melhor utilizar o logradouro de nossa família, para o bom desfrute da nossa juventude.



- Sem essa, prefeito Dió! E eu tinha dito para você não falar de política, não foi?



O carro disparou para 500 por hora, na entrada do matadouro fez a curva, emburacou e estancou na porta da obra, o prefeito Dió abriu os olhos. Quando o prefeito Dió observou um rabo abanando na porta da construção, saltou do carro e foi dizendo:


- É por isso que essa obra não acaba, um cachorro fica dormindo aqui dentro e abanando o rabo bem na porta, isso é sinal de atraso.



Quando puxou o bicho pelo rabo, não era um cachorro, era o bicho carneiro, que olhou para o prefeito Dió, sem entender bem aquele atrevimento de alguém puxá-lo pelo rabo na hora do seu repouso e foi falando:


- Beée! O que é isso? Por que você puxou o meu rabo? Qual de vocês dois quer construir um matadouro de ovelha aqui, neste local, beée?



- É ele, que é o prefeito – disse o irmão Lu apressado.



- Eu não! É ele que quer ser o prefeito – disse o prefeito Dió, mais apressado ainda.



- Beée, qual de vocês dois, é o prefeito Dió, beée? – perguntou o bicho carneiro.



- É ele – apontou o irmão Lu.



O carneiro deu quatro passos para trás. Quando o prefeito Dió viu aquilo, fez o giro, aprumou as pernas e se picou para Ipirá com o bicho carneiro atrás. No posto Augustus, num ligeirinho que tinha ido abastecer, alguém comentou:


- Olha o pique que vai o prefeito Dió na caminhada! Ainda leva um carneiro de estimação de companhia. Rapaz, não sei como prefeito Dió agüenta um pique desse! O sujeito está em forma.



- Também pudera, leva a semana toda dando pique na praia em Salvador, tu queria que ele chegasse aqui morto! – comentou outra pessoa.



Quando chegou ao hospital, o prefeito Dió foi em direção à recepção. Não teve jeito, o carneiro pegou de jeito e deu-lhe uma marrada daquelas de desconjuntar até os ossos. O prefeito Dió caiu em uma maca e o atendente foi dizendo:


- Esse tem que ir direto para a UTI, até que enfim parece que a gente vai inaugurar esse troço.



- Esse não precisa nem entrar, pelo jeito já bateu as botas, vou levar ele lá dentro só para descarrego de consciência – disse um maqueiro.



O prefeito Dió abriu um olho de mansinho, observou a movimentação do ambiente e pensou: “Eu acho que vou tirar uma onda de morto, só na novelinha, é bom lembrar, só na novelinha, vou lembrar de novo, é só na no-ve-li-nha, ai eu livro-me dessa coisa chata e sem graça, essa tal novelinha e de lambuja eu inauguro a minha UTI, que vai me ressuscitar, aí o povo vai saber que eu fiz uma obra de grande UTI-lidade para a população de Ipirá. E viva eu.”



Suspense: e agora ? o que será que vai acontecer ? Em quem o prefeito Dió vai dar a próxima facada? Na macacada ou no irmão? Será que não vai ter sangue e morte nessa novelinha? Ou vai ser tudo de mentirinha para aumentar a audiência. Agora é que essa novelinha vai ter briga de irmãos e não acaba nunca. Duas coisas de rosca, essa novelinha e o Matadouro de Ipirá.



Leia o capitulo 38 (novembro 2010) bem abaixo.



Observação: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária, que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

sábado, 10 de dezembro de 2011

HOMENAGEM (PARTE 11)


Tratava-se de uma inauguração importante e o prefeito José Leão estava sentindo-se gratificado pelo cumprimento de uma promessa de sua administração e, também, pela alegria das pessoas, que se sentiam contempladas naquilo que se transformou numa expectativa muito grande e que seria equacionada naquela noite. Estava tudo preparado para ser uma grande festa. Tinha que ser uma grande festa.




19 h. Muitas gambiarras clareavam a área da praça das casas populares, que seria inaugurada. Um caminhão estava estacionado e seria o grande palco do evento. O prefeito José Leão e seus secretários já estavam à postos, aguardando o início das festividades com um forró da gota serena, depois um pequeno falatório e a continuidade do rala-bucho até o amanhecer do dia. Esta era a impecável e insubstituível programação, que não podia ter falhas, por hipótese alguma.




19:30 h. O sanfoneiro Isaac estava pronto. Guri preparado com o triângulo. Só faltava ele, o famoso zabumbeiro, que estava com um pequeno atraso, mas era uma figura indispensável, tanto pela capacidade como pela popularidade. O prefeito estava incomodado e começava a reclamar pelo cumprimento britânico do compromisso, o que deixava o sanfoneiro com uma dose de impaciência e o pessoal presente começava a ficar meio arredio.




19:31. Faltava o zabumbeiro, que estava chegando, pois naquele instante descia apressado pela rua Riachuelo em direção às Populares, que ficava perto e era questão de poucos minutos, quando passou pela venda de Políbio, ouviu alguém chamando-o:


- Zabumbeiro Dodó, venha cá! Eu quero contá uma prosa prá vos-mi-cê.




Dodó parou, olhou e encostou. Foi seu erro. Era Antão, um negro alto, com dois metros de altura, magro e forte, que nem jumento da mata da Caboronga; era um pigunço inveterado, desses que acorda cedo para beber e bebe para dormir e acordar cedo para beber. Quando Antão ia comprar farinha levava, em média, quatro horas para comprar uma quarta, ficava bambo, com as mãos na cintura e dizia:


- Na razura – virava a cara e o corpo – eu só quero se for na razura.




Ia na barraca de seu Antônio da Cacimba, tomava uma e voltava para junto do saco de farinha com a mesma ladainha:


- Pela razura, se não for pela razura eu não levo.




Sempre com o corpo empenado e as mãos na cintura tornava-se uma figura tragicômica e haja conversa:


- O home dessa terra é doutô Delois.



Antão, com o olhar vidrado, ainda meio em pé, mas com uma bambeza nas pernas, embora, ainda, até aquele instante, em que viu o zabumbeiro Dodó, dava uma aparência de que, ainda, tinha espaço para mais uma dosagem. Quando o zabumbeiro encostou, ele disse:


- Vamo tomá uma, vos-mi-cê não paga nada, qui eu quero contá um causo prá vos-mi-cê.




- Eu tô com pressa qui eu vou tocá nas popular.




- Não me apronte uma disfeita dessa, é só uma, e quem paga sou eu – virou para o dono da venda e completou – seu Políbio bote duas talagada de Abaíra aí.




Seu Políbio colocou os copos em cima do balcão, caprichou na talagada, copo cheio, e Antão desceu de um gole, era profissional; o zabumbeiro Dodó tentou imitá-lo, engasgou, mas desceu.




Antão grudou o zabumbeiro e deu um gancho no seu pescoço, Dodó tentou escapulir, mas estava grudado. Antão começou a contar o tal causo e dava um cochilo, acordava, voltava a contar o causo e Dodó seguro:


- Vos-mi-cê sabe, Dodó da Zabum... (cochilava)...




- Me sorta Antão! Qui os zome ta me isperano – dizia Dodó e nada adiantava.




Antão recobrava os sentidos e ia falando:


- Cuma eu ia dizeno, eu fiquei aonde... (cochilava)...




- Me larga Antão! Qui eu tou no cumprumisso de tocá zabumba nas populá – dizia o zabumbeiro.




- Eu vou dizê prá sua pessoa, qui vos-mi-cê é... (dormia)...




- Oxente, Antão! Tu toma jeito, isso é lá trabaio que se faça! Me sorta, home de Deus! – esperneava Dodó e nada de conseguir escapulir.




- Dodó zabum... tu é o mió zabumb... (dormia) – aí era que apertava o pescoço de Dodó.





22 h. Na praça, o evento não tinha começado e a impaciência já começava a ser notada, principalmente no prefeito, que já deixava transparecer:


- O qui é que ta acontecendo?




- É esse irresponsave do filho de Pijú que não chegou ainda, esse elemento deve ta trampuzinando em arguma trampizuma pur aí – explicava um assessor.




O povo estava ficando impaciente, mas o grau de tolerância só era amortizado porque tratava-se do querido zabumbeiro, se fosse outro, nessa altura dos acontecimentos, não haveria perdão para as bandeirolas que estavam enfeitando a praça.




Meia-noite. Antão grudado no pescoço de Dodó, não tinha esforço que conseguisse desfazer o gancho:


- Zabu... Dodô, vós-mi-cê.. eu ia ti dizeno qui.. (dormia e o nó no pescoço do zabumbeiro apertava).




Dodó esperniava e gritava:


- Mi sorta, fie de uma jega! Tu qué mi istrepá.




Duas da manhã. Antão bambeava e se aprumava no corpo dominado do zabumbeiro:


- Zabumb... Dodó... vos-mi-cê sabe qui...




- Me sorta disgraça! Eu num sei disgraça de nada não. Tu num ta veno qui eu vou tocá zabumba.




- Meu amigo Dodó da Zab... eu vou te contá um causo...




- Me larga trem ruim! Eu não quero sabê de cabrunco de causo nenhum, não! Eu vou inaugurá a praça das populá – dizia o zabumbeiro.




- Escuta aqui Dodó, vos-mi-cê mora no meu... (não completava a frase, dormia)




- Ô seu custipiu do cranco! Sorta meu pescoço sua misera. Tu mora é na casa da disgraça.




- Zabum... Dodó... o qui eu vou aproseá é muito import...




- Conta logo disgraça e mi sorta, qui eu vou tocá.




3 h da manhã. Não tinha jeito. O zabumbeiro Dodó esperneava e chorava. Quando pensava na bronca que ia levar do sanfoneiro, chorava mais; pensava na bronca do prefeito, aumentava o choro; pensava no pai Pijú, aí desabava o chororô. Políbio já estava com pena do sanfoneiro e aporrinhado porque só tinha vendido duas Abaíra, ao tempo que tinha que suportar aquela conversa de bêbado, já por oito horas, assim, virou para Dodó e disse:


- Por que vos-mi-cê num passa arguma coisa qui iscorregue no pescoço e escapole?




- Tem manteiga aí, seu Políbio? – perguntou o zabumbeiro.




- Eu tenho banha, custa cinco mil réis.




- Bote prá cá – disse apressado o zabumbeiro.




- Me pague logo – falou o dono da venda.




- Tome aqui, mi ajude a passar no percoço.




4 h da manhã. Passaram a banha no pescoço e Dodó subiu e desceu, não deu outra, escapuliu. Antão, dormindo, ficou com o braço na posição de gancho. Dodó chegou na praça, o sanfoneiro Isaac tinha pressa, mandou ver, o zabumbeiro acompanhava, mas seu pescoço estava torto e ele ficava inclinado com o olhar na direção do Monte Alto. O prefeito gritou:


- Vai tocá até meio-dia. Se não tocá de maneira arguma eu vou pagá.




- A praça tem gente? – perguntava o zabumbeiro, com o pescoço torto, ao sanfoneiro.




O povo desconfiou do zabumbeiro e um malandro gritou, chamando à atenção:


- O ZABUMBEIRO DODÓ TÁ PARECENO GALO COM GÔGO, SÓ FICA OIANDO PÁ RIBA.




6 h de manhã. A turma tomou conta e o côro da torcida ensaiava: “ô, ô, ô! O zabumbeiro ta de gôgo”. Por uma subida da praça chegou Antão, que já tinha dormido e preparava-se para tomar uma, avistou Dodó e chamou-o:


- Zabumbeiro Dodó! Vamo tomá uma, vos-mi-cê não paga nada, é tudo pur minha conta, eu tenho uma prosa prá contá pra vos-mi-cê.




8 h da manhã. O pescoço de Dodó estava mais torto ainda e seu olhar já estava para o céu.