quinta-feira, 27 de dezembro de 2007


É DE ROSCA.
Estilo: ficção.
Natureza: novelinha.
Capítulo: 04. (mês de Janeiro 08)
Observação: Leia os capítulos 01,02 e 03 abaixo ou nas postagens anteriores.

A empregada Natalina não foi dispensada, porque o matadouro não está pronto e, também, devido à mão caprichosa que possui, o que a destaca como um dos melhores temperos de Ipirá, mas o fato de ser torcedora do Vitória e só saber cozinhar carne de carneiro, fez com que o prefeito Dió, anunciasse que dentro de sua casa não se falava mais em futebol. Com um problema a menos e com o campo de futebol inaugurado, o prefeito Dió andava muito sorridente, fato que chamou à atenção da empregada Natalina que falou, com a cara meio retorcida:
- Ô prefeito Dió ! eu tô cá com meus desconfiamento; vosmicê só tá de dente aberto, não é mais aquele homem carrancudo que só andava pelos canto, resmungando a farta de dinheiro. O que tá se assucedendo ?

- Não é nada fora do esperado, minha querida empregada Natalina, é que o Bahia ganhou na inauguração do campo e a vida é bela.

- Vosmicê num quer dizer, mas eu já tomei meus conhecimento pelo www. ipiranegócios que vosmicê tá montado na bufunfa e o que me deixa contrariada é que vosmicê primeiro contou para o mundo e não teve a consideração de mim dizer nem os centavos. Que farta de consideração é essa, como se trai assim a quem sempre lhe deu a mão ?

- Não entendi ainda o que a minha adorável empregada Natalina está referindo-se. Não lhe contei o que ?

- Já é do meu conhecimento que vosmicê recebeu do banco: dois milhões, vinte e um mil e duzentos e vinte e um real, e não me disse nem tantinho assim. Será que vosmicê pensou que eu ia querer esse um real ?

- Minha empregada Natalina ! quem tem que ficar aborrecido aqui sou eu. Não fique bisbilhotando Internet para ver as coisas. Lá tem coisa que não deve ser vista, como uma tal novelinha, que não vale nada. Assista só as novelas da Globo. Eu não falei com você, porque reservei a parte mais importante para o seu pronunciamento. O que eu devo fazer com esse dinheiro ?

- Vosmicê agora mim acarmou. Eu com uma dinheirama dessa deixava Ipirá nos trinco. Mandava pintar todo meio-fio da cidade, não podia ficar um parmo de meio-fio sem cal, e de lambuja exportava essa beleza para Baixa Grande e Macajuba, e bancava as conta; ia deixar tudo, uma belezoca de encher os zoim d’água. O povo ia ficar com os zoim anuviado de tanta belezura.

- Minha empregada Natalina ! fale sem querer dá lição de administração. É bom que você saiba que de todos os prefeitos que já teve essa terra, o que melhor e mais pintou meio-fio está aqui na sua frente e o povo na hora do vamos ver e digitar o seu número de confiabilidade, de que terá mais meio-fio pintado, não esquecerá dessa grande obra.

- Ô prefeito Dió ! deixe eu escutar de sua boca. O número de vosmicê é dois patinho na lagoa ou é aquele que as pessoa diz que dá azar ?

O tempo tinha passado e o prefeito Dió ficou sem condições de ir andar na Praça da Bandeira, resolveu dar outro rumo à conversa, e dirigindo-se à sua empregada doméstica e falou:
- Dona empregada Natalina coloque uma comida bem saborosa para este almoço, porque hoje eu estou com uma fome de leão do fazendão, enquanto isso eu vou tomar um banho rápido.

- Pode deixar prefeito Dió, a comida hoje tá uma delícia – disse a empregada.

O prefeito Dió foi rápido no banho, depois sentou-se à mesa e começou a fazer o seu prato, que estava posto sobre a mesa, logo surgiu uma montanha de arroz e de macarrão, e o prefeito Dió ordenou à empregada:
- Dona empregada Natalina ! traga a carne, por favor.

A empregada chegou com um prato cheiroso e fumegante e foi anunciando:
- Prefeito Dió ! adivinha o que eu fiz hoje, com molho de tomate e cebola ? vosmicê vai comer e recomer, até dizer chega: um fresco de carneiro.

O prefeito Dió deu um tremeleco, ficou sem sangue, botou a mão no estômago e desmaiou, caindo numa suadeira, que encheu a sala de água. A empregada pediu por socorro:
- Corre aqui gente, que o prefeito Dió tá entupizinado. Chama logo a ambulância.

SUSPENSE: Para onde o prefeito Dió será levado: para Salvador ou para o Hospital de Ipirá ? Será que o Hospital de Ipirá vai salvar o prefeito Dió, que corre risco de vida ? O que vai acontecer ?
Leia o quinto capítulo no mês de fevereiro 2008.

OBSERVAÇÃO: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007


OS CÃES LADRAM.

Interessante. O dia em que meu pensamento pensou, mas não falou, quando deveria falar mais do que pensar. Fui abordado por um conhecido, que me disse:
- Você seu Agildo, que fala de tudo, por que nunca falou do cartel do gás de cozinha em Ipirá ?

Naquele instante fiquei três p: parado, perplexo e pensativo; buscando uma resposta que não aparecia de nenhum jeito. Meu pensamento viajou para dentro de si, numa reflexão intensa e intempestiva: "será que estou sendo agraciado com a responsabilidade de trazer à tona todo e qualquer problema existente no município de Ipirá ?" Isso é impossível, não deve e não pode ser assim. Gritar é um pressuposto da cidadania e não é um pertence de uma só pessoa, mas de todos ou de qualquer munícipe, sem nenhuma exclusividade.

Enquanto eu pensava para responder, meu interlocutor conhecido encurralava-me no meu pensamento, que girava buscando, a todo custo, desembaraçar-se, mas a metralhadora verbal interlocutora desferia uma rebombada atrás da outra:
- Eu estou por dentro do que está acontecendo. O gás em Ipirá custa 35 reais, enquanto ali no Bravo é 27 reais. Em Irecê é 28 reais. Por que aqui tem esse preço ? é por causa do cartel.

Meu pensamento estava estancado numa encruzilhada impiedosa e não sabia se respondia que não sabia de nada, como fazem os governantes desse país, ou se recriminava-me pelo fato de nunca ter ido saber o preço do gás no Bravo. A resposta não se apresentava à minha língua e o conhecido interlocutor lascava o verbo da maneira que achava mais apropriada:
- Você não fala da máfia do gás de cozinha em Ipirá, porque você é conivente, tem o rabo-preso com essa gente graúda e tem medo.

No meu pensamento, fiquei até agraciado de certa forma, pelo fato de fazer postagem num blog, e este ser reconhecido, de certa forma, como um porta-voz e levantador dos problemas da comunidade, mas virar a lama e desinfetar uma sociedade corrompida como a nossa, sem a menor dúvida, é tarefa de muita gente e de muita ação cidadã.

Meu pensamento continuava em busca da resposta adequada e própria, que insistia em não sair, mas conseguiu visualizar a caravana dos mafiosos do gás de cozinha passando, enquanto dois cães, eu e meu conhecido interlocutor, ladravam desesperadamente; repentinamente, meu interlocutor pulou para o cortejo de príncipes, princesas e pequenos-burgueses formadores do cartel do gás de cozinha em Ipirá e, sorrindo alvissareiro, deixou-me latindo... latind...latin... e assim vamos chafurdando nessa imundície e engasgando com essa podridão que impera na sociedade capitalista. Eu espero continuar com meu latido, agora, eu juro por tudo, se estivesse a par desse abuso econômico não me negaria de fazer um artigo de repúdio e indignação. Fora isso e a tempo, resta dizer, que de gás eu sou apenas um simples consumidor.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


TRAIÇÃO EM IPIRÁ.

Quero dirigir-me ao povo de Ipirá e, principalmente, a você que diz que ama Ipirá e está sempre preocupado com seus problemas.

Em entrevista ao programa Conexão Chapada, da rádio Ipirá FM, no dia 28/11/07, o presidente da ADAB foi categórico, preciso e direto; não deixando nenhuma dúvida. Neste instante faço um resumo de cinco pontos que foram mais ou menos expostos da seguinte maneira:

1. ... não sei porque o pessoal de Ipirá não quer abater o carneiro em Feira de Santana, que fica a 100 Km ou em Pintadas, que fica a 70 km de Ipirá...

2. ...o poder público não tem a obrigação de fazer matadouro, isso tem que ser ação da iniciativa privada...

3. ...Ipirá tem 60 mil habitantes e temos que olhar para o interesse de toda essa população consumidora e não para 100 ou 200 pessoas...

4. ...matadouro é uma espécie de indústria e não pode funcionar abaixo da capacidade produtiva, porque representa prejuízo...

5. ...o governo não vai fazer gastos desnecessários com um matadouro em cada cidade; apenas é necessário que tenha um no território...

Podemos concluir, baseado na clarividência dessas colocações, que o Matadouro de Ipirá não vai sair do projeto e que Ipirá não vai ter matadouro para ovinos, caprinos e suínos. PONTO FINAL (é o que eles querem).

Vou colocar meu ponto de vista sem rodeios. Existe um complô contra Ipirá, por diversas razões, que envolve poderes públicos, comerciantes, políticos, partidos, sindicatos e até fervorosos ipiraenses, para beneficiar diretamente Feira de Santana ou Pintadas, que tem matadouro de ovinos. Isso não é fantasia nem invenção de minha parte.

O problema é que falta vontade política. No esquema administrativo e político montado com base no território, algumas demandas localizadas, que são essenciais e prioritárias para o município, perdem força e substância em razão do regional. Ipirá tem necessidade urgente, vital e logística de uma matadouro para sua produção de ovinos, para o sustento direto e a manutenção do seu mercado consumidor, mas como no território já existe um matadouro para ovinos, em Pintadas, o governo do Estado não vai gastar dinheiro à toa e não vai inviabilizar o matadouro de Pintadas, que para funcionar dando lucro depende da produção e do mercado de Ipirá, que não se indispõe a contribuir, mas não desse jeito avassalador.

Eis a questão fundamental. Tem muita gente e políticos na defesa dos interesses de lá e desse jeito o maior prejudicado será Ipirá.

Por que nem a reforma do matadouro de bovinos em Ipirá sai do papel ? Observe bem. Um grande matadouro tem um custo de 10 milhões de reais; um pequeno de 2 milhões de reais. Ipirá só recebeu 740 mil reais do Ministério do Desenvolvimento Agrário/CEF/SAF, para adequação e ampliação físicas para operação do matadouro de Ipirá. De onde sairá o restante ? Por que não mandaram o total de recursos necessários ? Porque uma pessoa do CRA até hoje, não veio vistoriar a obra e liberar o local ? Será que tudo isso não é uma farsa ? Se não for, no mínimo, é muita falta de seriedade e respeito para com a população de Ipirá.

Resta ver quem está a favor de Pintadas e contra Ipirá. Eles querem ganhar na opressão e perseguição aos marchantes de carneiros; na demora e delonga da obra; pelo cansaço da população; e pelo tempo, na esperança que as pessoas esqueçam a luta e acomodem-se. Trata-se de um grande jogo de interesse. Está na hora do prefeito Diomário mobilizar a população e enfrentar o problema de frente com o apoio e a ajuda popular, porque o esquema do governo e da justiça é forte e tem todos os trunfos nas mãos.

Cumpro a minha obrigação de enfrentar a discussão e alertar a população de Ipirá para todos esses fatos, porque até mesmo essa conversa de beneficiar 60 mil pessoas é puro engodo e um simples disfarce para atender aos interesses de três pessoas: dois atravessadores e um empresário. Ipirá necessita de um relacionamento econômico com Pintadas em mão-dupla e não nessas condições. O que é que você acha de tudo isso ?

quinta-feira, 29 de novembro de 2007


É DE ROSCA.
Estilo: ficção.
Natureza: novelinha.
Capítulo: 03. (mês de dezembro 2007)
Atenção: leia os capítulos 01 e 02, que estão abaixo.

O prefeito Dió foi ao matadouro e começou a observar que a obra encontrava-se no seu início, na capinagem, e pela sua vontade era para estar em ponto de inauguração. Ficou observando tudo com a maior paciência, ao tempo em que anotava todos os detalhes para fazer uma cobrança enérgica aos devidos responsáveis. Quando o sino da Igreja Matriz, na Praça da Bandeira, sinalizou que eram seis horas, o prefeito Dió deixou o matadouro e foi para casa. Deitou-se e acordou precisamente ao meio-dia, novamente sob os acordes do sino da Igreja Matriz. Dirigiu-se a empregada e falou:
- Minha dedicada empregada Natalina, prepare um almoço, que eu vou andar na Praça da Bandeira, êpa, errei o nome ! apaga o que eu falei – respirou fundo e continuou – aliás, eu quero apagar a noite de ontem e esquecer de vez esse Matadouro de Ipirá, que só me tem trazido preocupação.

- Vosmicê tem toda sabedoria, prefeito Dió; ficá com o pensamento em coisa que não vai prá frente só traz fervura na cabeça. Por que vosmicê não bota o pensamento só no campo de futebol, que vai ser desenroscado esse mês ? – sugeriu a empregada.

- Desenroscado não, ele vai ser inaugurado. Veja bem como você fala as coisas, minha empregada Natalina. Eu já estou pensando num time de primeira divisão para inaugurá-lo. Vai ser o tricolor de aço.

- Não prefeito Dió ! é que minha língua ficou atravessada e eu troquei as bola. E se vosmicê não se incomodar, eu vou fazer uma nova pergunta – esperou uma resposta, que veio com o balançar da cabeça – esse tal tricolor de aço sartou da terceira prá primeira ?

- Não é isso, minha grata empregada Natalina, o esquadrão de aço pode estar até na quinta, mas é time de primeira divisão. De futebol você não entende nada.

- Ah ! taí prefeito Dió, uma coisa que eu estou por dentro, igualmente a fazer comida. Eu acompanho jogo de bola desde o tempo do Independente, que quando entrava em campo, ia um bode na frente.

- Eu alcancei esse tempo, minha empregada Natalina, e lembro-me do bode que era mascote do Independente. O Bahia tem como mascote o super-homem. Eu quero descobrir uma pessoa, aqui em Ipirá, para se fantasiar de super-homem no dia da inauguração.

- O único super-homem que eu conheço nessa terra é vosmicê, prefeito Dió. Eu sou de opinião que vosmicê, prefeito Dió, deve vestir a roupa de super-homem, porque vosmicê é merecedor.

- Isso aí não ! eu prefiro não trazer o Bahia no dia da inauguração.

- Vosmicê, prefeito Dió, devia trazer um time com três letrinhas, igualmente ao nome de vosmicê, D – I – Ó, com acento no Ó, para abrir esse campo.

- Minha empregada Natalina ! não me fale em três letrinhas, porque é justamente três letrinhas que tem atanazado minha vida. Tem três letrinhas que mora aí no outro lado da rua, que só fica no meu calcanhar, e tem essas três letrinhas CRA, que pisa no meu calo e está tirando o meu sono.

- Taí prefeito Dió, porque vosmicê não trás o irmão desse CRA, o CRB das Alagoas para abrir o campo ? O CRB vem e joga, mas vosmicê paga ao irmão dele o CRA, aí esse trem ruim tira o pé de riba do seu.

- Não é assim que as coisas acontecem. O CRA não quer vir nesta cidade.

- Êta sujeito pozudo, esse tal de CRA. Vá vê que esse CRA é da quinta divisão do futebol das Alagoas. Eu já tô me vendo naquela arquibancada, que dá pra gente ficar deitada, pra vê o irmão desse CRA, o CRB abrindo o campo de Ipirá e entrando no gramado, com seu mascote na frente do time.

- Qual é o mascote deles ? – perguntou o prefeito Dió.

- É um carneiro – respondeu a empregada Natalina.

- Ai ! ai ! ai! Tira esse carneiro de dentro do campo, ele vai comer o gramado todo e só vai deixar a terra, ai ele vai engordar e vão querer matá-lo e o Matadouro de Ipirá não está pronto. Novamente, esse bicho carneiro atravessando na minha vida; eu não aguento mais isso. O que eu devo fazer para acabar com essa raça de bicho carneiro no município de Ipirá ?

- Eu tenho uma idéia, prefeito Dió. Como tá tudo seco em Ipirá e só tem de verde a grama do campo de futebol, vosmicê deixa todos os carneiro que tem em Ipirá entrá no campo, com as otoridade que persegue os carneiro, e traz as três letrinhas, ECV, o Vitória, para abrir o campo, aí o mascote do time, o leão da barra, come os carneiro e as otoridade, e aí acaba o problema prá vosmicê.

- Ô minha empregada Natalina, com essa enrolação toda de três letrinhas, era para chegar no ECV. Você é Vitória ?

- Desde criancinha, prefeito Dió.

- Em minha casa não, você vai trabalhar no matadouro – disse o prefeito Dió.

SUSPENSE: Será que o prefeito Dió vai botar a empregada vitoreira prá fora ? O que é que faz uma espiã do Vitória na casa do prefeito Dió ? Será que o prefeito Dió já virou Quinta coluna e agora é Vitória ? Quem vai inaugurar o campo de futebol de Ipirá, é o CRA; CRB; ECV; ECB; LCM; DIÓ ?

OBSERVAÇÃO: essa novelinha é apenas uma brincadeira literária que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.
Leia o próximo capítulo no mês de janeiro 08

sexta-feira, 23 de novembro de 2007


UNHA ENCRAVADA.

Abrem-se as cortinas no sertão ipiraense; no cenário, aparece a terra nua à mostra, o chão está rachado e esturricado; e neste instante, recomeça, novamente, o velho e surrado drama: a seca. Invariavelmente, ainda não aprendemos a lição da convivência com esta milenar incidência, que fica ao crivo das possibilidades individuais de cada personagem envolvido. O drama trágico desenvolve-se na angústia sentida pelo ser humano catingueiro, encravado nesta situação, que se vê negativado diante dos grandes problemas colocados à sua capacidade de ser gente e devido ao temor de desintegrar-se no nada. Aí, fica olhando para o céu em busca da ajuda divina e esperando que a natureza atenda
com abundantes chuvas as suas preces.

Enquanto as chuvas não caem, a nordestina indústria da seca faz a festa e suga a seiva que ainda resta. A estiagem chupa as reservas de água e a necessidade de água para beber passa a ser um tormento para o ser humano catingueiro. Aqui, o drama vira uma tragédia diabólica, porque os olhares ficam esperando o "Água para todos" e todo ser vivente está enfastiado de saber que a burocracia traceja com a desgraça humana e alheia, sendo que, neste triste cenário desenrola-se o já batido enredo das mulheres e crianças com latas de água nas cabeças; dos carros pipas atendendo às filas de gente com vasilhames, numa cena tão costumeira e de uso geral, que pouco importa ao sertanejo pagar o bem ou todo direito com o que se deposita nas urnas em tempo de eleições. Até as cisternas, que são reservatórios que atendem as unidades familiares, estão lacradas a diversos interesses e não consegue deixar de lado essa moeda de troca, e aconteceu até casos, em que o candidato que influenciou para que se fizesse a cisterna, perdesse o voto para o candidato que colocou a água na cisterna, que ele não influenciou para que fosse feita. Essa é a engrenagem em que está o ser humano carente da caatinga. Tudo é política, politicagem, favores, dependência, cabresto e unha encravada.

A base econômica do município de Ipirá é a pecuária. Na estiagem, essa base começa a declinar. Toma dimensões trágicas porque é formada por pequenos proprietários, sem apoio, carentes de recursos e de técnicas de convivência com a seca e sem capacidade para quitar dívidas sem dificuldades; mesmo nas unidades produtivas mais organizadas e preparadas para o enfrentamento da estiagem, esse é um período em que ocorrem perdas das reservas obtidas nos tempos mais favoráveis, assim sendo, esvaem-se as riquezas dos produtores e do município. Os carentes de recursos fazem das tripas, coração, e estendem as mãos em busca de uma ajuda. Poucos aguentam o tranco; só aqueles que retiram recursos de outras atividades para sustentar a pecuária, suportam a peleja. É uma fase de baixo ou nenhum rendimento e muita e alta despesa. É uma coisa que está amarrada no mourão de cada fazenda. Como um município pode prosperar com uma economia tão frágil e precária como esta ? Como um município pode ir para frente com uma base produtora tão vulnerável como essa ? Como um município pode aguentar o tranco, quando a esmagadora maioria de seus produtores rurais não possuem recursos para auto-sustentar-se ou nestes momentos, só fazem dilapidar a sua base de sustentação ?

Dessa dramaturgia barata da vida sertaneja, desponta os dramalhões de sempre nesse encantado reino ipiraense, quando a Prefeitura Municipal recebe 1 milhão de reais de convênios: 877 mil reais do Ministério do Turismo/CEF/TUR para a construção do mercado eventos pavimentação de vias/ruas em Ipirá – 130 mil reais do Ministério das Cidades/CEF para infra-estrutura urbana comunitária e apenas 740 mil reais para reformar o matadouro de animais, uma obra necessária, elementar e urgente para salvar a pecuária local. Não é uma inversão de prioridades ?

Mesmo vivendo um momento crítico para a economia do município, a preocupação está voltada para a feitura da praça mais bonita do interior da Bahia, para o deleite dos olhos que brilham com as flores na primavera, mas que, muitas vezes, não conseguem enxergar os galhos secos da vida e, também, daquelas pessoas que ouvem música estrangeira e a suadeira, mas que não se tocam com o que está em sua volta, porque estão cagando para o mundo. Dessa forma a realidade é o que é; depois não digam que a seca é crua e cruel.
O drama prossegue seu lento desenrolar. A pecuária de Ipirá, com seca ou sem seca, mastiga grandes dificuldades e está tomando uma topada que pode tirar-lhes os pés, porque está fechada em vontades estranhas às suas estruturas íntimas, que são sinuosas e frágeis, por isso precisam de mudanças, como o matadouro e um parque de venda de animais, coisas que não têm em Ipirá, mas a unha está encravada

terça-feira, 13 de novembro de 2007


É DE ROSCA.
Estilo: ficção.
Natureza: novelinha.
Capítulo: 02. (mês de novembro 2007)
Observação: Antes, Leia o primeiro capítulo logo abaixo.

O prefeito Dió só conseguiu sair do seu gabinete, na Prefeitura Municipal, depois da meia-noite. Estava exausto. Foi direto para casa, tomou um banho e deitou-se. Com meia hora de sono já estava envolvido com um sonho, no qual discutia-se qual seria o primeiro animal a ser abatido na inauguração do matadouro de Ipirá.
- Tem que ser uma vaca – dizia um fazendeiro.
- Por que vaca ? tem que ser um boi – falava um negociante de carne.
- Tem que ser uma vaca; por ser a vaca um animal sagrado lá na Índia e que representa a fertilidade que vai nutrir esse matadouro. Tem que ser uma vaca; porque a vaca tem uma anca sinuosa e apetitosa. Quem não tem vontade de comer uma vaca ? a vaca tem a docilidade e o frescor da feminilidade. Tem que ser uma vaca; porque a vaca tá no jogo do bicho e o boi não. Tem que ser uma vaca...

Neste instante foi interrompido pelo comerciante, que disse em voz alta:
- Só você pode falar ? você também tem que ouvir. Não tem nada a ver isso que você falou. Tem que ser um boi, por ser uma espécie robusta e cheia de vitalidade, a vaca tem que ir é para o brejo. O boi é o maior representante mamífero da caatinga; é um ruminante de aparência indolente, mas é de um temperamento indócil e é disso que os valentes catingueiros precisam. Não tem outro artiodáctilo que mereça a primazia diante do boi...

O prefeito Dió acompanhava toda aquela embolação sobre o boi e a vaca de forma displicente e já estava impaciente com aquela converseira toda, que não apresentava uma definição precisa, imediata e prática para que se inaugurasse logo aquele matadouro. Era preciso um rumo definidor. O prefeito Dió apenas ouvia, mas seu olhar esta petrificado na direção da navalha e quando o responsável gritou:
- Atenção ! neste exato momento, vai ser abatido o primeiro animal no Matadouro de Ipirá – pegando a alavanca e...
- Nãããããão – gritou o prefeito Dió, na tentativa de parar a ação do abate, antes que fosse tarde.

O prefeito Dió acordou, deu um salto da cama, atormentado e suando barbaridade, ao tempo que, sua esposa, assustada, indagava-lhe:
- O que foi prefeito Dió ?
- São os carneiros que querem tomar conta do matadouro.
- Foi um sonho prefeito Dió. Prá que a família Carneiro quer o matadouro ?
- Não é a família Carneiro não; é o bicho carneiro que botou a cabeça na guilhotina do matadouro para inaugura-lo e isso não pode acontecer e eu não vou deixar. Vou lá para ver como está a obra.
- Mas, prefeito Dió, é uma e meia da madrugada. O que é que você vai fazer lá, homem de Deus ? – perguntou a esposa.

SUSPENSE: O prefeito Dió vai ou não vai ao matadouro, acompanhar a obra ?
Ele vai ou não vai observar de perto ?
Leia o terceiro capítulo no mês de dezembro 2007.
OBSERVAÇÃO: Essa novelinha é apenas uma brincadeira literária que envolve o administrador e o matadouro e, sendo assim, qualquer semelhança é mera coincidência.

sábado, 10 de novembro de 2007

PARADA MÉDICA

A população ipiraense é obrigada a engolir cada caroço de manga-mamão, que não sei como passa pela garganta. Algumas idéias ficam embutidas nas cabeças das pessoas do mesmo jeito como o mandacaru está fincado na terra árida, como uma fortaleza. Mesmo sendo dessa maneira, nada é irremediavelmente verdadeiro, nem tão necessariamente correto.

Afirmava-se e acreditava-se que: "médico era imbatível nas eleições em Ipirá". Muito acreditou-se nisso, porém, esta proposição já caiu por terra e nem é levada em consideração, pois, por duas vezes, candidato médico foi derrotado por candidato advogado.

Reformularam a afirmativa, que tomou o formato de: "candidato a prefeito em Ipirá, para ser potencialmente forte tem que ser médico". Não duvido que seja forte, mas também, não me abstenho de fazer uma verificação da veracidade e legitimidade de tal proposição.

Se nenhum dos médicos, que atuam em Ipirá, é especialista em administração de cidades, então, os médicos, que aqui trabalham, não são portadores de um requisito que lhes dariam a preponderância diante de outros segmentos sociais.

Certas assertivas, como "médico é candidato forte" que são alavancadas para determinados fins, atendem muito mais aos interesses corporativos de determinado setor social, do que à essência das necessidades do município.Contrapõe-se à afirmativa "médico é candidato forte" um valor que contém muito mais substância do que o anterior, seria: "candidato com preparo". Então, a proposição anterior demonstra ser vulnerável diante de um olhar mais apurado e vai diluindo-se diante de uma inferência mais atenta, deixando de ser absolutamente verdadeira e muito menos legítima para as amplas aspirações municipais. Para o corporativismo da categoria que almeja o poder público é altamente satisfatória, útil e necessária; para o município, em sua complexidade, é de uma inutilidade a toda prova.

Se nenhum desses médicos, que atuam em Ipirá, possui uma compreensão total do município, o que é totalmente impossível; e se nenhum deles possui um conhecimento amplo dessa complexidade socioeconômica, então, esses fatos, por si só, já pressupõem uma deficiência e uma carência que os iguala a qualquer outro postulante, de qualquer outro segmento da sociedade ipiraense, e dessa forma, adeus superioridade e pretendente forte, ficaria eliminada a primazia.

Será que os pretendentes candidatos à prefeitura de Ipirá, que são médicos, debruçam-se diante de uma análise das raízes dos nossos problemas ? Será que eles pretendem buscar soluções com vistas ao bem comum ? Será que já extirparam da alma, os interesses pessoais ou de pequenos grupos ? Será que já estão convencidos da necessidade de uma prática política voltado para o bem comum ? Será que eles conseguem visualizar o traçado de uma infra-estrutura capaz de tirar Ipirá do fundo do poço ?

Ter o município de Ipirá administrado por médicos, não pressupõe de forma alguma progresso e desenvolvimento, também podem ser acompanhados de grandes escândalos. A prática tem nos mostrado essa realidade, o município de Ipirá está sendo obrigado a desembolsar mais de um milhão de reais em precatórios para a família de um médico despedido da Prefeitura Municipal, pelo prefeito de plantão, que era médico, nada mais, nada menos, por arrogância, prepotência, estupidez e irresponsabilidade. É dinheiro que está faltando para o matadouro, calçamento, escolas e hospital.

No meu entendimento, esse ponto de vista é insustentável e bem que poderia ser um princípio para uma boa discussão, e quem sabe, talvez desmanche alguns pedestais e apague algumas chamas da mais pura vaidade. O desenrolar dos acontecimentos leva a crer, que em Ipirá, no ano que vem, todos os candidatos a prefeito, serão médicos. Isso não significa a redenção deste município.